Migração de milhões de pessoas nas próximas décadas é “inevitável”

Para a escritora Gaia Vince, a questão das migrações climáticas devia ser abordada na COP27, uma vez que é “improvável” que consigamos limitar o aumento da temperatura global a dois graus Celsius.

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Uma mulher somali afectada pela seca segura a filha de três anos, ao lado da avó, num acampamento para populações deslocadas FEISAL OMAR/Reuters

A migração de milhões de pessoas de regiões do mundo que as alterações climáticas vão tornar quase inabitáveis nas próximas décadas é “inevitável”, alerta a escritora britânica Gaia Vince, que lamenta a ausência deste tema na cimeira das Nações Unidas sobre a crise climática (COP27).

Na opinião desta investigadora científica britânica, a questão das migrações climáticas devia ser abordada em Sharm el-Sheikh, Egito, na 27.ª conferência sobre a crise do clima, que vai decorrer entre 6 e 18 de Novembro, porque é “improvável” conseguir limitar o aquecimento global a dois graus Celsius acima dos valores da época pré-industrial.

“As pessoas vão ter de se deslocar, isso é inevitável. Já estamos a ver um grande número de pessoas a fugir de situações desesperadas do Sudão à América Latina e à Ásia”, disse Gaia Vince, em entrevista à agência Lusa.

Nas próximas décadas, antecipa, “dezenas de milhões de pessoas ou centenas de milhões de pessoas” vão ter de migrar, premissa que domina o livro que publicou recentemente, Nomad Century, que pode traduzir-se como “Século Nómada”.

Especialista em questões ambientais, Gaia Vince ganhou o prémio do melhor livro científico atribuído pela academia de ciências britânica Royal Society em 2015 com a obra Aventuras no Antropocénico.

O livro foi o produto de uma longa viagem pelo mundo realizada após despedir-se do emprego de editora da revista Nature para ver com os próprios olhos o impacto das alterações climáticas e o que várias pessoas estavam a fazer para tentar travar as suas consequências.

A nova obra surgiu da “frustração” com o impasse em questões como a redução das emissões de gases com efeito de estufa e políticas de mitigação e também com a constatação de que o aquecimento global vai continuar.

Gaia Vince aponta a migração em massa como uma solução, não um problema, apelando para que a comunidade internacional alcance um entendimento.“Isto [migrações] pode acabar em conflito e em muitas mortes. Poderíamos gerir isto de uma forma que levasse a sociedades produtivas e saudáveis, em vez de conflitos constantes”, defende.

No livro, refere como existem regiões, sobretudo nos trópicos e hemisfério Sul, onde vai ser quase impossível viver devido ao aumento da temperatura, à subida do nível do mar e a outros eventos extremos, como secas, inundações e incêndios.

Para sobreviver, milhões de pessoas vão ter de procurar zonas com melhores condições e Gaia Vince sugere que seja criada uma autoridade supranacional que faça a gestão dos fluxos migratórios e monitorize a criação de novas cidades em partes do mundo mais amenas.

De acordo com a autora, assumindo um aquecimento global de quatro graus Celsius por volta de 2100, valor baseado em algumas estimativas científicas, alguns destes novos aglomerados populacionais poderiam ficar em locais até agora inóspitos, como a Sibéria, Gronelândia e eventualmente até a Antárctida, além de partes do Norte da Europa, Canadá e Rússia.

A ideia é “radical”, reconhece, e terá de ultrapassar questões como fronteiras geopolíticas seculares e preconceitos como racismo, mas insiste que o problema deve ser discutido proactivamente de uma forma “pragmática”.

Um Portugal inabitável

No cenário de um aquecimento global de quatro graus Celsius até 2010, o continente africano, incluindo Angola e Moçambique, ficaria desertificado ou inabitável, bem como o Sul da Europa, que abrange Portugal ou Espanha.

“Portugal já está a ser afectado por estes problemas, como incêndios e seca hidrológica. A diferença relativamente ao Sudão é que Portugal é mais rico, é uma democracia, tem uma boa governação e faz parte da União Europeia, por isso as pessoas podem circular facilmente”, referiu a autora à Lusa.

Mas o país terá de mudar bastante nos próximos anos, adverte, nomeadamente adaptar o tipo de arquitectura, aumentar os reservatórios de água, construir fábricas de dessalinização e alterar o tipo de culturas agrícolas.

Em termos económicos, Portugal será afectado por uma tendência crescente de procura de locais menos quentes para turismo, reforma ou segundas habitações, e as próximas gerações poderão sentir-se mais atraídas por oportunidades de emprego em geografias mais a norte.

“As pessoas não querem passar o Verão numa onda de calor horrenda porque não podem sair e têm de ficar em casa com o ar condicionado. Isso não é agradável. Em vez disso, vão querer mudar para algo mais agradável, como os lagos na Finlândia. É uma mudança que terá lugar durante as próximas duas décadas”, vaticina Gaia Vince.

Decisores políticos, especialistas, académicos e organizações não-governamentais reúnem-se entre 6 e 18 de Novembro em Sharm el-Sheikh, no Egipto na COP27, para tentar travar o aquecimento do planeta. Líderes como o Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, já confirmaram que vão estar presentes, com o Governo português a ser representado pelo primeiro-ministro António Costa.

A COP27, que marca o 30.º aniversário da adopção da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC, na sigla em inglês), mantém os mesmos objectivos de outras cimeiras desde 2015, quando foi assinado o Acordo de Paris, para limitar o aquecimento global a dois graus Celsius até 2100, e se possível a 1,5 graus, acima dos valores médios da época pré-industrial.