Exposição

A batalha da avó de Olena contra “as trevas” da demência

Entre 2019 e 2022, a fotógrafa ucraniana Olena Morozova acompanhou a evolução da demência manifestada pela sua avó. Granny, em exibição nos Encontros da Imagem, em Braga, faz o retrato de uma batalha contra uma doença que é impossível de vencer. "A doença vence sempre e o pavor é visível."

Projecto "Granny" está em exposição nos Encontros de Imagem, em Braga ©Olena Morozova
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Projecto "Granny" está em exposição nos Encontros de Imagem, em Braga ©Olena Morozova

Irina, a avó da fotógrafa Olena Morozova, desenvolveu demência no final do ano de 2017, aos 87 anos. “Comecei a notar que a minha avó começava a contar-me histórias estranhas”, explica a ucraniana, autora do projecto Granny, ao P3. “Começou a dizer-me que os meus filhos iam até sua casa à noite e que falavam com ela, mas que ela não conseguia ouvi-los.” Ao vê-la inquieta, Olena convidou-a, então, a dormir em sua casa. “Ela passou parte do tempo a vestir-se para voltar para casa, mesmo sabendo que não iria a lado nenhum.” Foi após esses e outros episódios que denunciavam um estado de confusão que Olena sugeriu que a avó consultasse um médico. “Esse chegou à conclusão de que se tratava de uma manifestação de uma doença relacionada com a idade: demência.”

Após o diagnóstico, Olena começou a desenvolver uma pesquisa mais aprofundada sobre a demência. “Conversei com ela sobre a sua doença para que não perdesse o contacto com a realidade”, conta a ucraniana na descrição do projecto que se encontra em exposição ao abrigo dos Encontros da Imagem, em Braga, até 30 de Outubro. “Vislumbres do seu complexo e interessante carácter eram como pérolas que íamos sentindo através deste árduo trabalho de constante comunicação.”

As fotografias que produziu entre 2019 e 2022 formam a “crónica da luta [da avó] contra ‘as trevas’ e as visões de uma vida passada”. Ao mesmo tempo que fotografava o quotidiano da avó, Olena Morozova viajou, à boleia das suas memórias, através da sua infância em ambiente militar, da sua “juventude fascinante” e de momentos de “prática médica em condições desumanas e cruéis no interior da Rússia”, então União Soviética. “A minha avó foi médica. Toda a vida ajudou pessoas, mas, infelizmente, no final da sua vida ela tornou-se na paciente e os meus filhos e eu nos seus médicos.”

Irina era uma mulher que “tinha um excelente sentido de humor” e “era uma grande contadora de histórias”. Olena registou muitas das histórias da avó e tenciona incluí-las no livro cujo lançamento está previsto para o início de 2023 e para o qual procura financiamento numa campanha de crowdfunding, ainda a decorrer. O livro irá incluir fotografias de arquivo da avó, que datam dos anos 1930 a 1980. “Algumas foram realizadas pela minha avó, porque ela era fascinada por fotografia”, pode ler-se na descrição da campanha.

Quando a avó estava doente e Olena cuidava dela, sentiu “a necessidade de fotografá-la naquelas horas em que ela falava sobre as suas visões”, explica. “Tracei uma relação clara entre as memórias, impressões fortes e medos do passado da minha avó e as visões dolorosas do presente. Quando as fantasmagorias se fundem com a realidade, é sempre assustador.” O resultado, explícito no conteúdo das imagens, reflecte essa vertigem.

Os filhos da fotógrafa, Aleksandr, de 16 anos, Maria, de 12, e Timur, de 7, não ficaram de fora desse acompanhamento diário, “o que foi muito útil”, refere na sinopse; são os filhos quem figura nas imagens, na companhia da avó. “A avó adorava interagir com crianças e formava laços com elas rapidamente. E ela adorava os meus filhos, especialmente o mais novo, o Timur.”