Afinal, porque se atira sopa às flores de Van Gogh e puré aos palheiros de Monet?

Precisamos deste tipo de acções para sairmos do nosso estupor, para nos fazer pensar, para questionar as nossas posições e nós próprios. Se as acções dos activistas não fossem ousadas, mas “respeitáveis” como alguns pedem, ninguém prestaria atenção e hoje estaríamos numa situação bem pior.

Foto
Acção do grupo Just Stop Oil EPA/JUST STOP OIL HANDOUT

Segundo consta, a dieta de Vincent Van Gogh consistia apenas em pão e café. A sopa de tomate tornar-se-ia popular na segunda metade do século XIX. Considerando a sua dieta restrita, é difícil determinar se o pintor holandês alguma vez provou o dito caldo, ainda para mais atendendo ao facto de que o seu tempo de vida se prende ao mesmo período. Na verdade, Van Gogh viria a falecer cinco anos antes da Campbell Soup Company ter avançado para a produção da primeira sopa enlatada em 1895.

Claude Monet, em comparação, viveu uma vida confortável e plena. O pintor francês era conhecido por adorar lagosta e pato, e embora o puré de batata não seja a coisa mais sofisticada de sempre, proporciona um bom acompanhamento a qualquer prato. Aparentemente tem estado por aí desde o século XVII, pelo que podemos quase de certeza afirmar que Monet deve tê-lo degustado em algum momento. Não obstante e independentemente da dieta elusiva dos artistas, ambos ficarão indefinidamente vinculados aos respectivos pratos, tudo graças a dois pares diferentes de activistas.

Na semana passada, as identificadas Phoebe Plummer e Anna Holland, atiraram inesperadamente sopa de tomate sobre um dos quadros de Girassóis da autoria de Van Gogh, instalado na National Gallery em Londres. Após se terem colado à parede por baixo do quadro, uma delas indagou: “Estareis mais preocupados em proteger um quadro ou em proteger o nosso planeta e o nosso povo?”

No domingo passado, de forma semelhante, dois jovens entraram no Museu Barberini em Potsdam, encharcaram os Palheiros de Monet com puré de batata e também se colaram de imediato à parede, exigindo o fim do business as usual. Ambas trataram-se de acções de sensibilização climática apoiadas pelos grupos Just Stop Oil e Letzte Generation, que partilham o mesmo propósito de fazer soar o alarme sobre o actual curso do desenvolvimento da empresa humana que está a provocar uma crise climática sem precedentes. A primeira intervenção surge também em resposta a uma das últimas posições tomadas pelo efémero Governo de Liz Truss, que reverteu uma notória legislação de 2019 sobre os direitos de fracking em solo britânico. A segunda vem depois de enormes críticas à forma como o Governo de Olaf Scholz tem vindo a gerir a actual crise energética e de uma aparente inversão de ambição climática alemã.

Confusão, incredulidade, condenação e ataques absolutos dirigidos aos actos e aos seus agentes têm disparado por todo o globo terrestre. Muitos não conseguem entender que raio têm os pobres pintores a ver com as alterações climáticas. Tudo isto é inegavelmente compreensível, ao nível do bom senso. Eu próprio tive um pequeno debate interno, questionando-me se esta será de facto a abordagem correcta. Trata-se de actos bruscos e súbitos, que parecem susceptíveis de danificar permanentemente artefactos que são apreciados e amados por muitos. Mas ao fazê-lo, certamente que os activistas esperariam receber apreciações dos mais diversos quadrantes do espectro. Aliás, é exactamente por isso que o fizeram. Pretenderam captar a atenção do público e, assim, cumpriram o seu único objectivo: criar discussão sobre o assunto.

De facto, casos como estes têm-se tornado frequentes, e Van Gogh ou Monet não são os únicos artistas a serem visados. No início de Outubro, activistas da Extinction Rebellion colaram-se a um Picasso na National Gallery of Victoria, em Melbourne. Em Julho, dois activistas do grupo de acção Ultima Generazione colaram-se ao vidro que cobre a Primavera de Botticelli na Galleria Degli Uffizi. E no mesmo mês, no Louvre, um atcivista francês disfarçado de velhinha fez a Mona Lisa saborear chantilly possivelmente pela primeira vez. Estes tinham todos o mesmo objectivo, sensibilizar para a problemática mais premente que confronta a humanidade: as alterações climáticas.

Mas porquê atacar arte? Deve estar a questionar-se. A arte é uma peça primordial de toda a herança e identidade humana, transmitindo retratos históricos e emocionais das mais íntimas crenças e vivências. A arte dignifica-nos e torna este mundo mais convidativo. Atacá-la parece-nos pessoal, como se um pedaço do nosso ser estivesse a ser ameaçado. Imagine agora se todos os nossos alicerces, a nossa casa, o nosso povo, os nossos locais preferidos, estivessem sob cerco, prestes a serem mergulhados num pote de sopa escaldante, como é que isso o faria sentir? Porque é excatamente isso que está a acontecer e é exactamente isso que os activistas querem fazê-lo sentir. Há pouco tempo, uma citação em inglês fazia as rondas nas redes sociais: Earth without ‘art’ is just ‘eh’. Ora, sem a Terra, não há arte, não há cultura e não há vida.

A crise climática não está apenas de passagem, está aqui para ficar. Tempos desesperados exigem acções desesperadas,. Conscientes de que nada antes funcionou, estes activistas têm recorrido a tácticas de choque para encetar discussões e desencadear um debate sobre o que efectivamente importa. Mas a arte não é o único alvo. Há poucos dias, um grupo de activistas da Scientist Rebellion colaram-se ao chão de uma fábrica da Volkswagen. Em Setembro, um jovem de 21 anos, atou-se a uma das balizas do estádio do Everton FC. Ambas acções com objectivos de ordem climática semelhantes. Muitos, no entanto, questionam a eficácia de tais estratégias disruptivas, sugerindo que estes “ataques” podem ter um efeito adverso, abafando a causa e convertendo as pessoas na direcção oposta. Com efeito, têm uma certa razão, mas se isso acontecer, é altura de questionar as nossas prioridades.

Precisamos deste tipo de acções para sairmos do nosso estupor, para nos fazer pensar, para questionar as nossas posições e nós próprios. Se as acções dos activistas não fossem ousadas, mas “respeitáveis” como alguns pedem, ninguém prestaria atenção e hoje estaríamos numa situação bem pior. Voltar as costas após um abanão é uma característica pessoal, é um sinal de não se preocupar o suficiente - ou preocupar-se mais com outras coisas que não a saúde do planeta - e não culpa dos perpetradores.

Então, tudo é válido em nome da causa? Não, e pessoas como Phoebe, Anna, ou todos os outros mencionados, conhecem os limites. Eles não destruíram nada. Fizeram-nos, no entanto, ouvir, nem que seja por um segundo, a mensagem que o planeta nos está a tentar enviar. Como é que reagimos recai sobre nós.

Sugerir correcção
Ler 4 comentários