Forças iranianas tiveram ordem para “confrontar duramente” manifestantes, diz a Amnistia Internacional

Numa província, a ordem dizia que os manifestantes deveriam ser confrontados “sem mercê, podendo até provocar mortes”, diz a organização de defesa dos direitos humanos. Pelo menos 83 pessoas morreram, mas os protestos continuam.

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Manifestações na Austrália JAMES ROSS/EPA
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A morte de Mahsa Amini foi o que levou aos actuais protestos no Irão CLEMENS BILAN/EPA

A organização de direitos humanos Amnistia Internacional divulgou esta sexta-feira um documento mostrando uma ordem vinda do Quartel-general das Forças Armadas, a mais alta autoridade militar do país, a 21 de Setembro, dizendo aos comandantes das várias províncias do país que “confrontassem duramente os desordeiros e anti-revolucionários”. Segundo a Amnistia Internacional, nessa noite o uso de força letal aumentou com dezenas de homens, mulheres e crianças mortos nessa noite nos protestos.

A Amnistia confirma 52 mortes e diz que há centenas de feridos na sequência da repressão brutal que foi feita com recurso aos Guardas da Revolução, à milícia Basij, à polícia anti-motim, a agentes à paisana e outras forças de segurança. A organização diz que há provas do uso generalizado de armas de fogo pelas forças de segurança iranianas, que teriam o objectivo de matar manifestantes ou deveriam ter tido noção com um grau de certeza razoável que o uso de armas de fogo iria resultar em mortes. Um grupo iraniano com sede na Noruega, Iran Human Rights,​ diz que morreram 83 pessoas.

Num outro documento citado pela Amnistia, de 23 de Setembro, o comandante das forças armadas na província de Mazandaran ordenou às forças militares para “confrontarem qualquer perturbação causada por desordeiros e anti-revolucionários sem mercê, podendo até provocar mortes”.

Apesar do aumento do número de mortos nos protestos e da maior repressão das autoridades, vídeos continuavam a ser divulgados nas redes sociais a mostrar manifestantes a pedir o fim do regime dos ayatollahs em Teerão, Qom, e outras cidades.

Esta sexta-feira, as autoridades anunciaram a detenção de nove estrangeiros pelo seu “papel na agitação”, dizendo que os países de origem são Alemanha, Polónia, Itália, França, Países Baixos e Suécia, entre outros. Apoiantes do regime têm dito que os protestos são apoiados pelo estrangeiro, em particular pelos Estados Unidos, e que isso é uma intervenção indevida em questões internas do Irão.

A televisão estatal disse que a polícia deteve um grande número de “desordeiros”. Na véspera, diz a BBC, os media estatais apontavam 41 mortes, incluindo de forças de segurança, e mais de 1200 detenções.

O Presidente, Ebrahim Raisi, tinha prometido no sábado “lidar com determinação com os que se opõem à segurança e tranquilidade do país”. Antes, Raisi disse que a morte de Mahsa Amini, 22 anos, tinha de ser investigada, informando que a responsabilidade pelo caso está nas mãos do sistema judicial, e que as autoridades estão a fazer o que lhes compete.

Na quarta-feira à noite, repetiu, numa entrevista na TV estatal, que não irá tolerar o “caos”, e anunciou que peritos forenses que estão a analisar as circunstâncias da morte de Amini irão apresentar um relatório nos próximos dias.

Poucos acreditam na versão oficial de que a jovem curda teve um AVC e um ataque cardíaco. Quem assistiu à sua detenção conta que os polícias que a agrediram mal a detiveram, e que chegaram a bater com a sua cabeça num dos carros da polícia. Os manifestantes passaram de pedir justiça por esta morte, para porem em causa o uso obrigatório do hijab, queimando lenços nas manifestações e cortando os cabelos, até à reivindicação do fim do regime.

As forças de segurança iranianas já esmagaram com violência outros protestos, como em 2019, após o aumento do preço dos combustíveis, ou 2009, depois da eleição fraudulenta de Mahmoud Ahmadinejad.

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