Cinco frases que nunca devemos dizer aos nossos filhos

A forma como falamos com os nossos filhos influencia a forma como eles veem o mundo ao seu redor e a si próprios enquanto pessoas. No limite, o “abuso verbal” crónico com humilhação, crítica ou ameaça podem causar danos na arquitetura cerebral da criança.

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Ouvir continuadamente “tem cuidado”, “vê lá se te magoas” ou “é melhor não que te podes magoar” vai criar nelas uma imagem interior de si própria de alguém que não é capaz DR/Mick Haupt

Expressões que todos ouvíamos na nossa infância, do género “quando o teu pai chegar, vais ver!”, e que provavelmente muitas mães/pais ainda utilizam com os seus filhos, podem provocar muitos mais danos do que aquilo que pode imaginar.

Acredite ou não, essas frases que muitas vezes usamos sem pensar podem fazer mais mal do que bem. Desde o dia em que as crianças nascem e à medida que crescem e se desenvolvem são verdadeiras “esponjas”. Por isso, tudo aquilo que lhes dizemos fica com eles para toda a vida. Daí a importância de termos consciência desse impacto, para que possamos garantir que eles não saem feridos pelas nossas palavras.

A forma como falamos com os nossos filhos influencia a forma como eles veem o mundo ao seu redor e a si próprios enquanto pessoas. No limite, o “abuso verbal” crónico com humilhação, crítica ou ameaça (frases como “és sempre o mesmo, não fazes nada de jeito”, “podias ser um pouco mais como o teu irmão”, “se não te portas bem, vais ver o que te vai acontecer...” ou “és sempre o mesmo bebé”) podem causar danos na arquitetura cerebral da criança, levando-as a desenvolver transtornos de ansiedade, agressividade ou dificuldades nos relacionamentos sociais.

Compreendo que esteja a pensar que não tem esse género de discurso com o seu filho, mas acredite que muitas vezes não temos plena consciência do impacto não intencional de algumas coisas que dizemos.

Dou-lhe aqui alguns exemplos das consequências que algumas frases do nosso quotidiano, aparentemente sem importância, podem ter na autoestima, autoconfiança e no bem-estar emocional das crianças:

“Tu pões-me louca(o)”

Em primeiro lugar, as crianças não são responsáveis ​​pelo nosso bem-estar emocional, mas sim ao contrário. Nós, pais, somos responsáveis pelo bem-estar deles e por sermos capazes de manter a calma, mesmo quando estamos com raiva ou a sentirmo-nos frustrados com o comportamento deles.

“Não faças isso” ou “não mexas aí”

Esta frase é supercomum nos nossos discursos, mas, se pensar bem, ela não orienta a criança para o comportamento que nós queremos que ela tenha, deixando-a confusa e provocando uma onda de frustração de ambas as partes. Será sempre melhor orientar para o comportamento desejado. Por exemplo, em vez de “não te segures aí”, dizer: “Coloca as tuas mãos nos bolsos, por favor.” Ou em vez de “não batas no teu irmão” usar “as nossas mãos são para ser usadas assim” (e dar o exemplo pegando na mão da criança e fazendo festas no irmão).

“Para de chorar!”

Quando dizemos isto a uma criança, estamos a transmitir-lhe a ideia de que não devemos demonstrar as nossas emoções, que isso é errado! Até porque a infância é um tempo agitado onde as crianças recebem empurrões, caem e se magoam com alguma facilidade. E por isso naturalmente assistimos a algum melodrama que da nossa parte não justifica a constante “abertura das torneiras”. No entanto, será sempre mais positivo confortar a criança do que ridicularizar a sua dor. Vai ajudá-la a ganhar confiança e a confiar em si quando algum evento de maior lhe provocar a mesma dor.

“Tem cuidado"

Dizer isto a uma criança, quando ela está a tentar dar o seu melhor a equilibrar-se nas barras ou a tentar superar o seu medo ao entrar no mar, na verdade, só a vai tornar mais vulnerável… e, portanto, é provável que algo corra mal. Para além deste efeito a curto prazo, não podemos esquecer o facto de que as crianças (embora muitas vezes possa não parecer) se esforçam por corresponder ao que gostaríamos que elas fossem enquanto pessoas. Ouvir continuadamente “tem cuidado”, “vê lá se te magoas” ou “é melhor não, que te podes magoar” vai criar nelas uma imagem interior de si própria de alguém que não é capaz! E naturalmente vai aumentar a sua insegurança e torná-lo numa pessoa insegura no futuro. Se as aventuras do seu filho tocam na sua ansiedade e insegurança, aproxime-se dele para estar lá se ele cair, mas fique o mais quieto(a) e calado(a) possível!

“Eu bem te disse” ou “eu bem te avisei”

Na verdade, esta frase é daquelas que ninguém quer ouvir, nem mesmo os adultos! Porquê? Porque não ajuda em nada ninguém, quando algo de errado acontece. Até pode ser que esteja certo acerca do facto de ter alertado o seu filho, mas confortá-lo e estabelecer uma ligação com ele nesse momento vai contribuir para que no futuro ele não se sinta envergonhado de vir falar consigo acerca de outra coisa mais importante que lhe tenha corrido mal!

Bom, na realidade ninguém é perfeito, muito menos nós, pais! E por isso já todos nós dissemos estas e outras frases mais vezes do que as que gostaríamos de ter dito. Mas quando se sentir em “piloto automático” e perceber que vai novamente cair na tentação, respire e faça uma pausa! Mesmo que sem querer lhe saia alguma pela boca fora, peça desculpa. “Desculpa por aquilo que eu te disse” é uma frase que nunca irá fazer mal ao seu filho, tal como “eu gosto tanto de ti!”. Desta forma, ajudamo-los a desenvolver a sua auto-regulação e estamos a ajudar-nos a nós próprios e a toda a família.


Psicóloga clínica especialista em bebés e fundadora da ForBabiesBrain by Clementina. A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990​

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