Filme-mundo: A Mãe e a Puta

É o mundo todo entre quatro paredes, desmedido, perfeitamente e terrivelmente inclassificável, constantemente dialéctico e errante: A Mãe e a Puta, de Jean Eustache, esta quinta-feira nas salas.

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Recording of the program "The Garden of Jérôme Bosch's delights" realized by Jean Eustache. (Photo by Laszlo Ruszka / INA via Getty Images) Laszlo Ruszka / INA via Getty Images

Jean Eustache realizou as suas duas obras magnas a meio da sua curta carreira: A Mãe e a Puta e Mes Petites amoureuses, respectivamente, de 1973 e 1974. Os prémios e os elogios que recebeu pelo primeiro e o falhanço comercial do segundo definiriam o resto da sua carreira, ou seja, da sua vida. É complicado adivinhar como teriam sido se Mes Petites amoureuses tivesse sido um sucesso, visto que nestes dois filmes está toda a sua vida pessoal, como toda a sua vida intelectual e artística. A meio dos anos 80, Serge Daney escreveu sobre o grande cineasta egípcio Youssef Chahine que os seus últimos trabalhos eram os de um homem que descobriu o tipo de filmes que se deve fazer quando não se tem mais tempo a perder. Esses dois filmes de Eustache são grandes em tamanho (sobretudo o primeiro) e com uma ambição que nada tem que ver com comércio, mas também são dos frescos mais intimistas e púdicos alguma vez levados a cabo em cinema. A Mãe e a Puta desenrola-se em quartos, cafés, bancos de jardins, passeios ou becos clandestinos, onde, pela duração das cenas, dos blocos de tempo, da insistência da palavra e dos olhares, dos gestos, toda a protecção da ficção cai e as personagens ficam nuas. Os actores, como o realizador, ficam igualmente nus, com a ferida aberta da exposição em primeiro grau. Mes Petites Amoureuses só à primeira vista é mais delicado, pois quem lá habita ainda não adquiriu tais requintes de vampirismo.

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