Países bálticos querem enviar navios de guerra para furar o bloqueio russo aos portos ucranianos

Ministro lituano fala em “coligação de vontades” entre alguns membros da NATO e outros países dependentes dos cereais ucranianos, como o Egipto, para libertar 25 milhões de toneladas de cereais actualmente presos nos portos da Ucrânia.

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Imagem do porto de Odessa antes do conflito Valentyn Ogirenko/File Photo/REUTERS

Alguns países, como a Lituânia e a Estónia, estão a considerar a possibilidade de enviar navios de guerra para o Mar Negro para escoltar embarcações ucranianas com cereais e furar o bloqueio que a Marinha russa está a fazer aos portos da Ucrânia.

Segundo o Times de Londres, o ministro lituano dos Negócios Estrangeiros, Gabrielius Landsbergis, discutiu o assunto com a sua homóloga britânica, Elizabeth Truss, e além de Lituânia, esta “coligação de vontades” poderá incluir alguns Estados-membros da NATO e outros países muito dependentes dos cereais ucranianos, como o Egipto. “O tempo está a esgotar-se. Estamos a aproximar-nos de uma nova colheita e não há outra forma prática de exportar os cereais que não seja através do porto de Odessa, no mar Negro”, disse o ministro lituano ao Guardian, acrescentando: “É imperativo que mostremos aos países vulneráveis que estamos preparados para dar os passos necessários para alimentar o mundo.”

Apesar de o assunto ter sido discutido com Truss, do lado britânico as declarações foram cautelosas. “Neste momento não existem planos para enviar navios de guerra do Reino Unido para o mar Negro”, disse um porta-voz do Governo.

O Presidente da Estónia é favorável à ideia e até reclama a sua autoria. Em Davos, onde está a participar no Fórum Económico Mundial, Alar Karis declarou que tem vindo a discutir o assunto há algum tempo com outros países, mas que “nem toda a gente estava convencida de que é uma boa ideia” porque “poderia intensificar a guerra no mar Negro”. Agora, no entanto, já há mais adeptos da iniciativa, diz Karis. “Parece-me que vai funcionar.”

A concretizar-se, a acção pode significar um aumento da tensão entre o Ocidente e a Rússia num momento em que as relações se deterioraram consideravelmente por causa da invasão russa da Ucrânia. A ideia é evitar que a crise alimentar mundial se agudize devido à falta de escoamento dos cereais russos e ucranianos, dois dos maiores produtores mundiais, principalmente depois de a Índia ter proibido as exportações da sua própria produção, de modo a evitar escassez ou aumento de preços no seu mercado interno.

Na semana passada, o Governo dos Estados Unidos tinha anunciado que estava a trabalhar com os seus aliados europeus para estabelecer rotas que permitissem assegurar a saída da produção de trigo e de milho ucraniano através do porto de Odessa, face ao bloqueio imposto pela Rússia, com minas e navios no mar Negro. A Administração Biden chegou mesmo a aventar a hipótese de recorrer a mísseis de longo alcance para atingir os navios russos, algo que seria equivalente a uma declaração de guerra à Rússia.

A invasão russa da Ucrânia provocou uma escalada de preços dos cereais a nível mundial, sobretudo nos países em desenvolvimento. Calcula-se que haja neste momento 25 milhões de toneladas à espera de serem embarcados nos portos ucranianos, principalmente em Odessa, de acordo com a ministra dos Negócios Estrangeiros alemã, Annalena Baerbock.

A Ucrânia tem tentado escoar cereais por via terrestre, mas dessa forma apenas consegue exportar cerca de um quinto do que habitualmente envia para o estrangeiro. Enviá-los por comboio para a Polónia obriga a mudar a mercadoria de composição na fronteira, uma vez que a bitola europeia é diferente da ucraniana, e não há do lado polaco grandes zonas de armazenamento. Outra hipótese, exportar os cereais pela Roménia, que envolve uma complexa operação de transporte, também se tem revelado pouco frutífera. O sector agrícola representa 10% do PIB ucraniano, o que em 2021 significou 12 mil milhões de dólares.

O plano de Reino Unido, Lituânia e outros países passa primeiro por desminar os mares junto ao porto de Odessa e a seguir estabelecer um “corredor de protecção” para a passagem dos navios ucranianos com os cereais.

A Rússia tem sido acusada de estar a aproveitar a guerra para saquear os cereais da Ucrânia e exportá-los como seus, acusações que o Kremlin tem sistematicamente desmentido.

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