Como responder à ameaça nuclear de Putin?

Vacilar faria com que as as armas de destruição massiva, que nas últimas décadas têm inspirado cautela em decisões de política externa, se transformassem num elemento facilitador de agressão militar convencional.


A Rússia respondeu duramente ao anúncio do pedido de adesão da Finlândia à NATO, ao qual se seguiu o da Suécia. O antigo primeiro-ministro e presidente da Federação Russa, Dmitri Medvedev, falou novamente no risco de uma “guerra nuclear total”. A renovação da ameaça nuclear era expectável: Putin tem feito repetidas referências mais ou menos veladas a uma retaliação de “consequências nunca antes vistas”.

A utilização de uma arma nuclear quebraria o “tabu nuclear”. O termo designa o amplo consenso de que utilizar este tipo de armamento está fora de questão em todas as circunstâncias em que a sobrevivência do Estado não esteja em causa. A retaliação que o agressor nuclear sofreria após utilizar estas armas contra um terceiro seria tão devastadora que apenas faria sentido considerá-la em situação de desespero. A utilidade das armas nucleares está pois não na sua utilização mas antes na sua “não-utilização”. É possível argumentar que esta natureza defensiva do nuclear tem sido um elemento estabilizador da política internacional desde a Segunda Guerra Mundial.

Mas o que acontece quando um Estado ameaça a utilização do nuclear não para proteger as suas fronteiras de uma agressão militar convencional, mas antes para se escudar enquanto invade outro Estado? É esse o desafio que Putin está a fazer ao “tabu nuclear”. No seu discurso de 24 de Fevereiro, dia da invasão, disse: “Quem quer que se atravesse no nosso caminho, ou mesmo quem nos ameace a nós e ao nosso povo, deve saber que a resposta russa vai ser imediata, e levará a consequências que nunca enfrentaram na vossa história”.

A fraqueza da resposta Ocidental à invasão da Crimeia e do Donbass em 2014 pode bem ter reforçado a confiança de Putin neste método de intimidação. Já nessa altura, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo Sergei Lavrov havia insinuado que quem auxiliasse o país agredido, a Ucrânia, sofreria retaliações de acordo com a “doutrina de segurança nacional” russa, numa referência ao nuclear.

O problema para Putin é que, desta vez, a ameaça não funcionou. O Ocidente encarou a invasão em larga escala da Ucrânia como um ataque frontal à ordem internacional que tem garantido a segurança na Europa. Com o apoio das suas populações, os governos mobilizaram-se para apoiar a Ucrânia e impor pesados custos à Rússia. E Putin não concretizou a ameaça nuclear.

Além disso, a invasão correu mal em termos operacionais. Uma guerra-relâmpago que esperava ganhar em dias transformou-se numa guerra de atrito que expôs a desorganização das Forças Armadas russas. Na Ucrânia e nos Estados Unidos, fala-se já em “derrotar” ou “enfraquecer” a Rússia. O respaldo político e diplomático que Putin encontrou na China será tanto mais problemático para ele quanto mais a sua incapacidade militar na Ucrânia provar que a Rússia será o elo mais fraco na parceria sino-russa.

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Desfile do Dia da Vitória, de 9 de Maio MAXIM SHIPENKOV

Será então possível que a iminência de uma derrota e consequente demonstração de fraqueza militar levem Putin a ir mais além no seu desafio ao tabu nuclear? Uma hipótese seria o uso de uma arma nuclear “táctica”, limitada ao teatro de operações. Também poderia quebrar um outro tabu utilizando armas químicas. A “linha vermelha” traçada pelo Presidente Obama em 2012 em relação à utilização de armas químicas na Síria revelou-se inconsequente. Bashar al-Assad utilizou gás sarin sobre a população e mantém-se no poder, com o apoio de Putin. A inutilidade dessa “linha vermelha” pode levar o líder russo a achar que o emprego de armas nucleares tácticas ou armas químicas lhe permitiria quebrar a resistência ucraniana e ao mesmo tempo convencer o Ocidente da sua determinação.

O que quer que aconteça, vivemos momentos que definidores da forma como os Estados encaram a utilidade do seu armamento nuclear. Apesar da ameaça nuclear e dos custos da guerra para as nossas economias, diminuir o apoio à resistência ucraniana ou limitar o alargamento da NATO seria validar a chantagem de Putin. As armas de destruição massiva, que nas últimas décadas têm inspirado cautela em decisões de política externa, transformar-se-iam num elemento facilitador de agressão militar convencional.

Os próximos tempos serão tensos. Sendo improvável, ninguém pode garantir que Putin não causará destruição nuclear em larga escala. Mas é garantido que ceder à sua chantagem e vacilar no apoio à Ucrânia dará aos detentores de armamento nuclear a convicção de que podem agredir impunemente Estados que não detenham este tipo de armamento. Dada a situação difícil em que Putin se colocou, só a nossa determinação pode evitar esse desfecho.

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