Nós já somos os ciborgues de Donna J. Haraway?

Não é a primeira vez que a filósofa norte-americana é editada em Portugal, mas a tradução de Um Manifesto Ciborgue, pela Orfeu Negro, convida-nos revisitar o legado de uma obra considerada revolucionária nos estudos da tecnologia, ciência e feminismo. O Ípsilon procura mapear o seu impacto e a sua influência cultural no pensamento.

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No prefácio de Um Manifesto Ciborgue (Orfeu Negro 2022) de Donna J. Haraway (Denver, 1944), o professor universitário e ensaísta Bragança de Miranda escreve que o manifesto da filósofa americana, associado ao ciberfeminismo, “caiu como um meteoro na academia e nas suas divisões normalizadoras do saber”, academia essa que, acrescenta, estaria “impreparada para o acto de mistura que articulava carne e máquinas, capital e dominação, informática e ligações”. Volvidas várias décadas — o ensaio foi publicado em 1985 na revista Socialist Review e conheceria, seis anos depois, a sua versão final em livro — é provável que a academia já tenha digerido o impacto. Com efeito, o nome Donna J. Haraway tornou-se familiar e, noutros ambientes (em especial o artístico e, por vezes, literário), é regularmente citado. Críticos culturais, artistas ou investigadores dos estudos de género, da tecnologia e do feminismo familiarizam-se com as suas teses, ao ponto de as defenderem. E mesmo aqueles que destas se distanciam (em particular no que concerne à relação com a técnica), reconhecem a oportunidade — ainda que problemática — das suas perspectivas. Assim, e seja qual for posição que se tenha sobre o pensamento da Donna J. Haraway, este solicita-nos um diálogo a partir do qual se formulam perguntas: somos hoje todos ciborgues? De que ciborgue nos fala a autora? Que relação tem esse ser ou entidade com o feminismo? A edição pela Orfeu Negro do mencionado ensaio (à qual se junta a tradução de O Manifesto das Espécies de Companhia) é uma oportunidade para reconstituir o lastro de um pensamento. Aproveitemo-la com uma questão inaugural: em que debate participa ou quer participar Donna J. Haraway quando publica Um Manifesto Ciborgue?

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