Não chamem vencidas às que morrem, pede Anne Boyer

Aos 41 anos foi-lhe diagnosticado um cancro da mama agressivo. Contrariando estatísticas, não morreu e escreveu um livro íntimo, político, literário sobre uma doença marcada pelo preconceito, pela segregação social, racial, cultural. As Que Não Morrem ganhou o Pulitzer em 2020 e é agora publicado em Portugal.

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Como conjugar na mesma frase “eu” e “cancro”? Para a poeta e ensaísta Anne Boyer a primeira dificuldade diante do diagnóstico talvez tenha sido com a linguagem. Não era o cliché da falta de palavras. Era mais do que isso: era como se a doença transformasse a identidade individual até a tornar irreconhecível. “O cancro da mama convive mal com o ‘eu’ que poderia ‘falar deste terrível assunto’ e oferecer ‘este deplorável relato’.’’, escreve no prefácio socorrendo-se de testemunhos de outras escritoras que, antes dela, se confrontaram com a mesma confusão. Audre Lorde, Jacqueline Susann, Charlotte Perkins Gilman, Katty Archer, Susan Sontag. “Este ‘eu é por vezes aniquilado pelo cancro, mas outras vezes é aniquilado de antemão pela pessoa que o promone denota, quer pelo suicídio quer por umas teimosia autoral que não permite que ‘eu’ e ‘cancro’ se conjuguem numa unidade de pensamento.”

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