Do mar para as torneiras: como Porto Santo se fez laboratório para a dessalinização no mundo

O Porto Santo enquanto destino turístico não existiria sem a Central Dessalinizadora, inaugurada há 40 anos. A ilha passou de uma crónica escassez de água, para uns abundantes 6500 metros cúbicos por dia.

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Gregório Cunha
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É um “state of the art” – Nuno Pereira, director da empresa pública Produção da Águas e Resíduos da Madeira (ARM), vai dizer três vezes esta expressão, enquanto percorre os espaços técnicos que compõem a Central Dessalinizadora do Porto Santo. A primeira, quando mostra ao PÚBLICO uma das quatro galerias de captação de água salgada. Uma “invenção” da empresa, na qual assenta grande parte da eficiência da central.

“O segredo é a forma como fazemos a captação da água”, conta Nuno Pereira, apontando para uma abertura larga na rocha, escavada mesmo junto à central. Aquele poço que transborda com a maré cheia inundando toda a sala, é a face mais visível do processo de captação de água salgada. “Isto é o que vemos, mas a água que utilizamos vem de mais longe da costa e de maior profundidade”, explica o responsável pela dessalinizadora, adiantando que a captação é feita a cerca de 80 metros da costa e a uma profundidade que ronda os dez metros.

Este método, aliado às propriedades semi-impermeáveis da camada rochosa que se esconde debaixo da areia da praia, garante uma água bacteriologicamente pura, que “não precisa de tratamento” ou desinfecção, apenas uma “ligeira filtração”. Permite reduzir custos operacionais e atalhar caminho.

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No total, a dessalinizadora é servida por quatro galerias de captação, e tem uma quinta em fase de projecto. “É um investimento que tem de ser feito, e que vai permitir dar mais folga à estação”, justifica Amílcar Gonçalves, presidente do conselho de administração da ARM, que enquadrou o projecto, a rondar os dois milhões de euros, no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). “Faz todo o sentido, e insere-se na filosofia do PRR, pois o abastecimento de água do Porto Santo depende exclusivamente da dessalinizadora.”

Quando a central foi inaugurada, em 1980, o antigo presidente do governo madeirense, Alberto João Jardim, falou de um “dia de sobrevivência”. Amílcar Gonçalves, recorda essas palavras. “Foi preciso visão e uma certa urgência, para avançar com esta central, numa altura em que pouco ou nada se conhecia sobre esta tecnologia”, sublinha o presidente da ARM. O Porto Santo sofria de uma escassez de água crónica. A que existia, era retirada de furos, e chegava às torneiras com um elevado nível de calcário. “Esta situação inviabilizava qualquer investimento, e qualquer futuro ao nível do turismo para a ilha”, diz Amílcar Gonçalves, dizendo que não existiam alternativas.

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Mesmo assim, insiste, foi preciso coragem e visão. Na altura, quase bastavam os dedos de uma mão para contar as estações deste género no mundo, e a maioria recorria a métodos térmicos, que obrigavam a um elevado consumo energético. “O Porto Santo não tinha energia para isso, e a solução foi avançar para um processo de osmose invertida.” A central foi a primeira da Europa, e a quinta no mundo, a utilizar esta tecnologia. A água é bombeada para a estação e, após o pré-tratamento, é inserida no sistema onde unidades de electrobombas de alta pressão fazem a água salgada passar por um conjunto de membranas que vão reter 99,9% dos sais.

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Quem explica agora é novamente Nuno Pereira. “Por cada 100 litros de água salgada que entra no sistema, saem 45 litros de água doce”, contabiliza, dizendo que o restante regressa ao mar. “Com estas quantidades não tem impacto ambiental”, garante, regressando ao “state of the art” para falar do sistema de recuperação de energia, que permite uma redução entre 35 a 40% do consumo energético. “Fomos a primeira central a utilizar este sistema, que foi depois replicado”, conta. Sem esta tecnologia, o consumo, que anda à volta dos 3 a 3,5 KW/h por metro cúbico de água, seria quase proibitivo.

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Mesmo assim, adianta Amílcar Gonçalves, o custo de produção continua elevado. Na ilha, um metro cúbico de água custa 0,79 euros, sendo que 50 cêntimos é gasto com eletricidade. “Já na [ilha da] Madeira, a água custa 12 cêntimos por metro cúbico, e apenas cinco cêntimos são de consumo de energia”, compara o presidente da ARM.

A dessalinizadora, que começou por produzir 500 metros cúbicos de água por dia, tem actualmente capacidade para atingir os 6500, o que só acontece no Verão. A ilha tem uma população residente a rondar as cinco mil pessoas, que cresce para 20 mil em Julho e Agosto. Funciona com oito técnicos e está totalmente informatizada – tudo, realça Nuno Pereira, “state of the art”.

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