Rio e Rangel medem forças no conselho nacional

Marcação ou adiamento das directas vão dividir os sociais-democratas em vésperas de uma corrida eleitoral interna.

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Rui Rio vai ter oposição ao apelo para adiar as directas em função do Orçamento do Estado LUSA/TIAGO PETINGA

Sem que Rui Rio ou Paulo Rangel se tenham assumido ainda como adversários nas próximas eleições internas, o conselho nacional desta noite, em Lisboa, vai permitir que os dois meçam forças dentro do PSD. Em cima da mesa está a proposta formal de marcação de datas (com duas alternativas) e o apelo do líder do PSD para que seja adiado esse agendamento até que se esclareça se há ou não crise política e legislativas antecipadas. O resultado deste confronto vai ser lido como uma vitória ou derrota para cada um dos lados. Curiosamente, os dois eram do mesmo lado no congresso de 2020: Paulo Rangel era o número um da lista de Rui Rio ao conselho nacional.

Na reunião desta noite, num hotel em Lisboa, espera-se que Rui Rio sugira o adiamento da marcação das eleições conforme propôs esta quarta-feira em declarações aos jornalistas horas depois de Marcelo Rebelo de Sousa ter avisado que o chumbo do Orçamento do Estado para 2022 significa eleições legislativas em Janeiro. Aliás, ao que o PÚBLICO apurou, terá havido conversas entre o Presidente da República e a direcção do PSD sobre o assunto.

Rui Rio pode, por isso, transformar o seu apelo de adiamento numa proposta oficial para ser votada pelos conselheiros nacionais. Caso não o faça (e nenhum dos seus apoiantes apresente essa proposta), é possível que os “rangelistas” proponham o inverso. Na ordem de trabalhos mantém-se, para já, a proposta da direcção: eleições directas a 4 de Dezembro (e congresso em Janeiro) ou directas a 8 de Janeiro (e congresso em Fevereiro).

Os “rangelistas” (ou apenas críticos da actual liderança) têm criticado duramente o volte-face de Rui Rio, acusando-o de “manobra táctica” para ganhar tempo sem que haja qualquer crise política à vista. “Isso vê-se nas pequenas coisas como nos prazos de pagamento de quotas que foram encurtados”, comentou um conselheiro nacional. No calendário de 4 de Dezembro, o prazo para pagar quotas (e assim permitir que os militantes votem) baixou cinco dias face ao regulamento de 2020, deixando agora apenas três semanas para essa actualização.

Entre os próximos de Rangel cresceu a tese de que esta pretensão de querer adiar a escolha do novo líder do PSD até à votação do OE 2022 serve para ganhar tempo na corrida interna para conquistar mais apoios depois de perceber que alguns dos seus antigos apoiantes vão falhar. Ou até mesmo para não ser candidato à liderança do PSD.

Do lado da direcção, a versão é outra: o adiamento das directas não é estratégia interna. “O conselho nacional tem toda a liberdade para tomar a decisão que entender. Não vale a pena estarmos com desesperos, agonias e dramas. É racional e há três cenários possíveis”, afirmou esta tarde à TSF David Justino, vice-presidente do PSD.  

David Justino lembra ainda que o “Presidente da República até definiu o calendário” das legislativas, referindo que os calendários do Presidente e o interno do PSD mostram que há “sobreposição”. Mas na oposição há outras leituras. Paulo Cunha, líder da distrital de Braga e que encabeçou a segunda lista mais votada ao conselho nacional, considera que não será “indiferente” ao Presidente da República a data das legislativas quando o PSD está em processo eleitoral interno.

Em declarações à agência Lusa, Paulo Cunha assume que pedirá a Rui Rio que esclareça o que mudou em “algumas horas” para apelar ao adiamento das eleições internas quando tinha acabado de enviar a proposta com as datas. O ex-presidente da câmara de Famalicão lembrou ainda que, do ponto de vista formal, a comissão política nacional tem o poder de retirar da ordem de trabalhos os pontos relativos ao calendário eleitoral, mantendo apenas a análise da situação política.

Outra voz crítica foi a de Miguel Morgado, antigo assessor político de Passos Coelho, que considerou o adiamento um “absurdo”. Miguel Pinto Luz, destacado apoiante de Paulo Rangel, chamou-lhe mesmo um “golpe palaciano”.

Resta saber se esta indignação se torna maioritária no conselho nacional, um órgão em que Rui Rio (com Rangel em número um) tinha a maioria dos eleitos em congresso.