Produtividades na Europa e nos Estados Unidos

As universidades europeias estão formatadas a modelos de ensino padronizados há décadas e desatualizados (aqui encaixam-se na perfeição as portuguesas), onde não falta dinheiro que é suportado por quem produz. Para quê inovar? Esforço para quê se está tudo assegurado?

Habitualmente vemos nos Estados Unidos um país de autênticos e absolutos contrastes. Por um lado, vemos exemplos que devem ser seguidos e por outro lado, temos péssimos exemplos que a todo o custo devem ser evitados, como é o caso do radicalismo e do negacionismo do que quer que seja. Para verdades irrefutáveis nas sociedades ocidentais desenvolvidas, nos Estados Unidos existem sempre negacionistas que se servem da vulnerabilidade dos seguidores em proveito próprio. O país mais avançado do mundo, também apresenta em muitos aspetos uma dose de ignorância capaz de representar algum recorde mundial do ridículo.

Num país em que, segundo o The Washington Post, cerca de 7% da população pensa que o leite achocolatado vem das vacas castanhas, está tudo dito em relação ao que se pode esperar. Será que alguma vez lhes perguntaram a origem do leite com morango?

Mas, na realidade, os norte-americanos também apresentam imensas virtudes e bons exemplos, sendo que é nesses que nos devemos focar, pois são muitos desses exemplos que contribuem para o seu desenvolvimento, como seja a sua elevada produtividade total dos fatores.

Ano após ano, desde o início da última década do século passado, que a produtividade total dos fatores da Europa cresce a um ritmo médio 16% mais lento do que a dos Estados Unidos.

A disponibilização de capital nas empresas não é explicação para esta discrepância, em virtude das empresas europeias apresentarem uma estrutura de capitais média mais elevada em todo o período analisado (1990 – 2018). Como as legislações laborais na Europa são mais rígidas, as empresas europeias sentem necessidade de investir em tecnologia intensiva para contrariar essa rigidez, e daí esta estrutura de capital. Então qual poderá ser a explicação?

As principais diferenças estão na qualidade da força de trabalho e na organização empresarial das empresas norte-americanas, que a intensidade de capital europeia consegue apenas atenuar. O número médio de anos de escolaridade frequentado pelos trabalhadores norte-americanos é claramente superior ao dos europeus, sendo que atualmente se pode considerar este um importante indicador, porque as melhorias nas diversas produtividades decorrem da capacidade de adoção de novas tecnologias. Por outro lado, os gestores também apresentam este tipo de diferenças, que afetam a capacidade organizativa das empresas.

Outra diferença fundamental é o próprio sistema de ensino superior nos dois lados do Atlântico. Nos EUA, as melhores universidades na sua maioria são privadas que têm de competir entre si como em qualquer setor de atividade. Estas universidades apresentam altos níveis de qualidade, elevada atratividade para os alunos e estão sempre a investir em inovação. Também registam consecutivamente patentes e protótipos que se tranformam em bens comercializáveis de alta tecnologia, criam prémios para os melhores desempenhos, incentivam e publicitam a excelência.

Na Europa existe também competência científica, só que, ao contrário dos EUA, é uma competência de lápis e papel, que não se traduz em ideias de negócio valiosas, nem tão pouco os alunos são incentivados para isso, pois os professores não são empreendedores. As universidades europeias estão formatadas a modelos de ensino padronizados com décadas, quadrados e desatualizados (aqui encaixam-se na perfeição as portuguesas), onde não falta dinheiro que é suportado por quem produz. Para quê fazer melhor? Para quê inovar? Esforço para quê se está tudo assegurado?

Claro que existem exceções. São as que confirmam a regra.

Enquanto não forem resolvidos muitos problemas de fundo, a Europa vai estar sempre a divergir em relação às diversas produtividades, face aos EUA - e Portugal face à generalidade dos países europeus, com todas as consequências negativas para a nossa economia, a começar pela falta de competitividade.

Quem não entender que a falta de produtividade é a principal razão de termos salários baixos e de a economia não crescer como devia, por exemplo atingindo o limite do endividamento público preconizado pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento, é porque não percebe como funciona a economia. Exigir subida de salários, sem existir produtividade que suporte tal exigência, é crime contra a economia e parvoíce. Exige-se apenas porque fica bem, para manter as hostes na ilusão e no protesto.