Primeiro-ministro da Austrália admite faltar à decisiva cimeira do clima em Glasgow

Scott Morrison disse que estará concentrado na reabertura do país após o levantamento das restrições no combate à pandemia, num país que está no topo dos maiores poluidores do mundo.

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O Governo de Scott Morrison tem projectos para a expansão dos combustíveis fósseis Reuters/ISSEI KATO

O primeiro-ministro da Austrália, Scott Morrison, não dá como certa a sua participação na cimeira da COP26, uma das mais importantes reuniões dos últimos anos sobre o combate às alterações climáticas.

O encontro, que vai decorrer entre 31 de Outubro e 12 de Novembro em Glasgow, na Escócia, é visto como a última esperança para que a inevitável subida da temperatura global fique abaixo de 1,5 graus — o limite a partir do qual, segundo o consenso da comunidade científica, as consequências para as populações serão dramáticas.

A ministra dos Negócios Estrangeiros da Austrália, Marise Payne, disse ao jornal West Australian que o país estará representado na cimeira “com uma comitiva forte, seja quem for o representante máximo”. E reafirmou que o compromisso do Governo australiano com o combate às alterações climáticas “é muito claro”.

Mas, a confirmar-se, a ausência do primeiro-ministro da Austrália na COP26 será vista como uma desvalorização da cimeira, à luz das críticas de que o país tem sido alvo por não se comprometer com as metas mais ambiciosas do Acordo de Paris de 2015.

“É mais uma viagem ao estrangeiro, e eu estive em quarentena durante muito tempo”, disse Scott Morrison ao jornal West Australian. “Tenho de me concentrar nas questões nacionais e na pandemia. A Austrália vai reabrir por volta dessa altura, e vamos ter muitos assuntos para gerir.”

Nos últimos meses, o primeiro-ministro australiano esteve na Cornualha, no Reino Unido, para a cimeira do G7; e em Washington, nos Estados Unidos da América, para a primeira reunião dos países do Quad (EUA, Austrália, Japão e Índia) desde a reactivação do diálogo estratégico entre os quatro países durante a Administração Trump, em 2017.

"Ponto de viragem"

A prioridade da 26.ª Conferência das Partes (COP26) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas é “deixar o carvão no passado”. Em Maio, o presidente da COP26, o britânico Alok Sharma, definiu a cimeira como “a última esperança” para limitar os efeitos das alterações climáticas.

“Esta é a nossa última esperança de atingir a meta de 1,5 graus. A nossa melhor hipótese de construir um futuro mais verde, com empregos sustentáveis e um ar mais limpo. Tenho esperança de que os líderes mundiais estarão à altura da ocasião”, disse Sharma. “Glasgow deve ser a COP que deixa o carvão e os mercados de carbono no passado. É tecnologia antiga.”

Na semana passada, num discurso na 76.ª Assembleia Geral da ONU, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, disse que a COP26 “tem de ser um ponto de viragem para a humanidade".

O pouco entusiasmo do primeiro-ministro australiano com a cimeira de Glasgow está relacionado com o facto de a Austrália ser um dos maiores poluidores do mundo em valores per capita

Segundo um estudo de 2019 da organização Climate Analytics, se os projectos do Governo australiano para a expansão dos combustíveis fósseis se concretizarem — e se o resto do mundo adoptar, entretanto, medidas de combate às alterações climáticas consistentes com o Acordo de Paris —, a Austrália poderá ser responsável por 17% das emissões globais em 2030.

Em Julho, um relatório das Nações Unidas pôs a Austrália no último lugar, em mais de 170 países, numa avaliação sobre o ritmo das medidas de combate às alterações climáticas.

Na época de incêndios de 2019 e 2020, a Austrália teve o seu segundo Verão mais quente desde que há registos, com uma temperatura 1,88 graus acima da média. O Verão mais quente tinha sido registado na época anterior, com uma temperatura 2,14 graus acima da média — uma tendência de subida que começou a verificar-se a partir da década de 1950.

Segundo o Instituto de Meteorologia australiano, se a subida na Austrália prosseguir a um ritmo acima da média global, é possível que o país registe um aquecimento de 4 graus em 2100 — mais do dobro do aquecimento verificado no Verão de 2019 e 2020, quando o calor provocou uma onda de incêndios florestais que fez arder uma área superior à de todo o território continental português.