O que querem as mulheres?

A exigência do respeito, pois. Eis o que nos parece que todas as mulheres têm em comum em todo o mundo. E é isso que deve ser trazido à boca de cena. Não que cada um dos outros problemas seja secundário, mas porque este é suficientemente amplo para carregar consigo todos os outros.

As lutas das mulheres estão hoje submersas num mar de teorias pós-modernistas. Em vez de apontarem um caminho claro para a igualdade humana, misturam e enredam tantas questões diferentes, afogando-as num jargão de tal modo incompreensível, que as lutas feministas acabam por ser difíceis de entender.

Escolhamos não o que nos divide, mas o que nos une. Entre todas as opressões que sofremos, uma há que comanda todas as outras e à qual devemos pôr termo ontem: é a violência de género em todos os domínios. Está em redor de nós e é continuamente perpetrada e replicada por todos.

Diariamente, somos confrontadas com relatos de práticas violentas. Chegam-nos por diversos canais e são consumadas por diferentes agentes. Todas nós já provámos dela, independentemente da classe, cor da pele, local de nascimento, condição económica, grau académico, sexualidade e idade. Violência física e violência psicológica, até mesmo da parte de pessoas que nos querem bem.

As estatísticas são claras: uma em cada três mulheres já experienciou violência física ou sexual; uma em cada duas mulheres já experienciou assédio sexual; uma em cada vinte mulheres já foi objecto de violação; uma em cada cinco mulheres já foi objecto de perseguição persistente. Estes são dados partilhados quanto às formas de violência mais comummente dirigidas contra mulheres, mas, lamentavelmente, não esgotam o elenco.

Recentemente, o movimento Climáximo denunciou as revistas abusivas a que activistas foram submetidas no contexto da sua detenção pela PSP. Forçadas à nudez e obrigadas a agachar-se, estas mulheres viram-se intimidadas e humilhadas por parte dos órgãos do Estado que estão incumbidos da sua protecção. Estranhamente, investigando casos com contornos semelhantes, somos confrontadas com o vazio. Custa crer que este se trate de um caso único, pelo que nos resta questionar a falta de denúncias e projecção nos órgãos de comunicação social de situações semelhantes.

Foi este caso e outros que têm sido noticiados ao longo do período pandémico que motivaram esta nossa reflexão, que permanece actual. Por que meios se perpetua a violência contra as mulheres? Por quem? Porquê? Em nome de quê? E o que reivindicamos nós, mulheres? Somos, desde muito novas, expostas a uma realidade violenta. Ouvimo-la pelas histórias que partilham connosco, tentamos evitá-la ao seguir os conselhos com que nos presenteiam as nossas cuidadoras e as nossas pares, e vivemo-la na primeira pessoa. A nossa vivência parece pautada pela tentativa de superação de uma constante ameaça.

Para combatermos este estado de coisas, as mentalidades precisam de continuar mudando. É necessário que os homens e as mulheres se subtraiam à influência de velhos preconceitos que uma sociedade predominantemente machista ainda nutre. Todas as coisas que afectam a liberdade, a educação, a saúde, o emprego, a vida familiar e a vida sexual das mulheres estão longe de estarem resolvidas. É verdade que muitos avanços ocorreram no século passado e, principalmente, nos últimos 50 anos. No entanto, muito ainda precisa de ser cumprido.

Ao vermos as circunstâncias em que se encontram as mulheres afegãs, a supressão dos seus direitos e a absoluta tirania a que estão submetidas, não podemos deixar de mostrar a nossa solidariedade, ao mesmo tempo que tememos pela sua, e nossa, condição. Se percorremos um longo caminho, devemos também ter consciência de que as vitórias que hoje celebramos podem rapidamente tornar-se em retrocessos com consequências gravíssimas para todas.

Podemos olhar as mulheres do Afeganistão, mas também as de tantos outros países, que vêem revertidas conquistas fundamentais que levaram anos, séculos, a ser reconhecidas. Tome-se como exemplo a reversão do Roe v. Wade no estado do Texas, que acarreta a proibição do aborto a partir das seis semanas de gestação e a implementação de medidas extremamente restritivas no acesso a este cuidado de saúde. Esta foi, e é, uma das lutas fundamentais das mulheres no acesso a cuidados dignos de saúde e na protecção da sua integridade física e psíquica: atacar os meios que permitem um aborto seguro porá em causa a saúde de todas as mulheres, em particular das mulheres mais pobres. Relembremos Simone de Beauvoir quando afirmou que basta uma crise política, económica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. A nossa vigilância e luta devem ser constantes. Ainda existe muito que proteger e que reivindicar.

Que querem as mulheres?

Respeito. O respeito devido a todos os seres humanos e o respeito das leis. As mulheres querem salários iguais, uma saúde direccionada para os seus problemas específicos, a partilha do trabalho doméstico e do cuidado dos filhos, a liberdade de andar na rua sem medo, o reconhecimento da sua voz. O respeito pelo seu corpo e pela sua mente. As mulheres querem paz.

Mais do que os comportamentos individuais que, sabemos, sendo muitos e diversos, levarão o seu tempo a transformar-se, querem, exigem que o Estado, garante das liberdades e dos direitos, comece a transformação dos comportamentos nas instituições que dele emanam. Querem que o Estado efectivamente trabalhe pela aplicação das leis nos serviços públicos. É urgente formar, educar esses agentes de poder no atendimento, no seguimento e nas possíveis soluções. Mais do que em todas, nas instituições policiais. Uma instituição do Estado que trata as mulheres com violência, desdém e humilhação não só viola a lei como declara abertamente que a lei pode ser violada... com toda a impunidade.

Polícias, juízes, médicos, assistentes sociais, funcionários públicos que tratam as mulheres de forma abusiva e condescendente têm de ser educados e formados devidamente e têm de ser responsabilizados quando prevaricam. Sem caça às bruxas e sem que lhes seja retirada a possibilidade de vivência digna. Fala-se muito de empatia nos discursos de formação. Mas a empatia mal compreendida, e portanto mal aplicada, pode tornar-se uma arma de agressão. A empatia não é mostrar um ar condoído ou articular uma frase de circunstância. É reconhecer a pessoa e o seu pleito e encontrar com ela soluções que a satisfaçam, isto é, não aquilo que pensamos que lhe serve, mas aquilo que lhe serve realmente.

A exigência do respeito, pois. Eis o que nos parece que todas as mulheres têm em comum em todo o mundo. E é isso que deve ser trazido à boca de cena. Não que cada um dos outros problemas seja secundário, mas porque este é suficientemente amplo para carregar consigo todos os outros.