Activistas pelo clima acusam PSP de revistas abusivas

Num total de 26 activistas conduzidos para a esquadra 19 seriam mulheres e todas terão recebido ordem para tirar a roupa e algumas até para se agacharem. Apresentaram agora uma queixa-crime contra a PSP.

aquecimento-global,feminismo,lisboa,ambiente,clima,alteracoes-climaticas,
Fotogaleria
LUSA/RODRIGO ANTUNES
aquecimento-global,feminismo,lisboa,ambiente,clima,alteracoes-climaticas,
Fotogaleria
LUSA/RODRIGO ANTUNES
aquecimento-global,feminismo,lisboa,ambiente,clima,alteracoes-climaticas,
Fotogaleria
LUSA/RODRIGO ANTUNES

Homens revistados de forma superficial, com roupa no sítio. Mulheres revistadas a fundo, com ordens para se despirem e, nalguns casos, para se agacharem. A queixa-crime por revistas abusivas, na Esquadra de Olivais, em Lisboa, seguiu esta terça-feira, por email, para o Ministério Público.

Sete colectivos feministas – A Colectiva, Feministas Em Movimento, Feminismos sobre Rodas, Marcha Mundial das Mulheres, Mulheres p'lo Direito à Habitação, Por todas nós e União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) – uniram-se ao colectivo Climáximo e às 26 pessoas detidas numa acção intitulada Em Chamas.

Os factos remontam à tarde do dia 22 de Maio de 2021. A acção de desobediência civil fora convocada pelo Climáximo. Mais de uma centena de pessoas marcharam desde o Aeroporto General Humberto Delgado até à Praça do Aeroporto, conhecida por Rotunda do Relógio, a exigir “menos aviões, transição justa, mais ferrovia”.

Durante cerca de uma hora, os activistas cortaram o trânsito em dois pontos-chave: a saída da Avenida do Brasil e a rotunda antes da saída para a Segunda Circular. Fizeram-nos usando os seus corpos. As fotografias e os vídeos mostram algumas pessoas sentadas no chão ligadas por tubos e outras em pé.

Inês Teles, porta-voz do Climáximo, lembra-se de ouvir a polícia dar ordem de dispersão. “O bloqueio manteve-se. Algumas pessoas foram levadas para carrinhas”, descreve. “Ocorreu tudo muito depressa. Foi uma reacção muito diferente das que a polícia teve noutras alturas em que ninguém foi sequer identificado.” Ainda no dia 5 de Outubro tinham bloqueado a Rotunda do Marquês de Pombal durante várias horas. Usaram o feriado da implantação da República para “reivindicar a ‘res-publica'" (expressão latina para “coisa do povo” ou “coisa pública"), ou seja, a responsabilidade social pelo clima.

No protesto de Maio, seguiram para a esquadra um total de 26 pessoas, 19 das quais mulheres. Já na esquadra, conta Inês Teles, foram separadas por género: as mulheres para um lado e os homens para o outro, tudo para que cada uma pudesse ser revistada por agentes do género correspondente. Só mais tarde perceberam a diferença.

Os homens mantiveram-se vestidos todo o tempo que ali estiveram. Foram revistados com apalpação superficial. Já as mulheres foram entrando em divisões e recebendo ordens para se despirem e, nalguns casos, até para se agacharem. “Algumas pessoas questionaram-se sobre estas revistas”, afiança. “Recebemos respostas evasivas, como se não tivesse sentido estarmos a colocar questões.

Todas as pessoas transportadas para a esquadra podem ser objecto de revista. É o que se chama “revista de segurança”, destinada a garantir que não têm qualquer tipo de objecto com o qual possam atentar contra a sua integridade física ou de outros. Só havendo alguma suspeita se avança para uma revista de obtenção de prova.

Os activistas alegam que, neste caso concreto, a PSP foi longe demais e que assumiu um comportamento discriminatório. “Consideramos que isto é escandaloso”, diz Inês Teles. “É uma tentativa de intimidação.”

Naqueles dias, o colectivo emitiu uma nota de repúdio, subscrita pelo grupo de associações feministas parceiras. “A humilhação de corpos e, em específico, femininos não nos passa como indiferente”, lê-se nesse documento.

Questionaram, por escrito, o comandante da esquadra dos Olivais sobre “o fundamento das revistas e sobre tratamento diferencial entre géneros e os critérios de diferenciação dentro do grupo de mulheres”. “Não houve qualquer incumprimento”, terá respondido, sem se debruçar sobre a desigualdade de género. Decidiram avançar com uma queixa-crime ao Ministério Público.

A queixa só seguiu esta terça-feira, 20 de Julho. Explica Inês Teles que foi necessário conjugar a vontade de 26 pessoas em torno de um assunto que não deixa de ser delicado. Objectivo: “repor a verdade, apurar responsabilidades, tirar consequências”.

No comunicado conjunto, emitido esta terça-feira, argumenta-se que “o choque entre a acção não violenta das activistas e a violência a que a polícia submeteu os seus corpos torna evidente o conflito entre aqueles que lutam por um futuro digno num planeta habitável e aqueles que defendem o sistema que destrói activamente esse futuro”. “Mesmo que a repressão se intensifique, a luta por justiça climática continuará, mantendo-se o compromisso.”

A polícia não comenta. “Iremos colaborar com a autoridade judiciária na análise de todos os procedimentos policiais ocorridos nesse dia para com os cidadãos que foram conduzidos à esquadra”, limita-se a dizer Nuno Carocha, porta-voz da Direcção Nacional da PSP.