Jardim e o regresso à política: “Eu não tenho conserto”

Antigo líder do PSD-Madeira entrou na campanha para ajudar o candidato do partido no Funchal. Objectivo é recuperar uma autarquia que foge aos sociais-democratas desde 2013.

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Alberto João Jardim de regresso às lides políticas na campanha autárquica do Funchal LUSA/MIGUEL A. LOPES

Jardim não tem “conserto”. E a mulher sabe. Até à próxima sexta-feira, todos os dias, Alberto João Jardim vai estar em campanha ao lado de Pedro Calado, o candidato da coligação ‘Funchal Sempre à Frente’, apoiado por PSD e CDS. Os mesmos dois partidos que suportam o governo madeirense, e de onde Calado saiu em Agosto da vice-presidência para procurar recuperar a autarquia do Funchal, nas mãos de uma coligação liderada pelo PS desde 2013.

A derrota eleitoral, nas autárquicas desse ano, acelerou o processo de saída de Jardim que, no ano seguinte, deixava a liderança do partido, e, já em 2015, demitia-se do governo, forçando eleições antecipadas que o PSD-Madeira, já com Miguel Albuquerque, viria a vencer. Seguiu-se um período de afastamento da vida partidária, exceptuando algumas raras intervenções, e sempre muito críticas para com a nova liderança social-democrata regional.

O regresso foi acontecendo aos poucos, e coincidiu com a entrada de Calado no governo regional. O agora candidato é uma figura praticamente consensual no PSD-Madeira. Jardim foi assumindo um papel mais interventivo. Nas últimas regionais, subiu ao palco do comício de rentrée política do partido. Antes, já tinha ido ao congresso nacional apoiar Rui Rio, e regressado em força à Festa da Chão da Lagoa. Mas, nada como agora. Nada, como este empenho.

“Já tinha saudades?”, pergunta-se à entrada do parque de estacionamento de um pequeno supermercado, em São Martinho, uma das 10 freguesias que fazem a geografia do Funchal. “Gosto sempre de ajudar o partido, e vou ajudar sempre”, responde ao PÚBLICO. Passo a trás, e uma ressalva: “Ajudo quem quer ser ajudado. Escreva aí. Quem quer ser ajudado.” Fica o recado, enquanto no pequeno palco a banda canta qualquer coisa como “graças a Deus, o divórcio vai chegar”.

Não se sabe quem se vai divorciar de quem. Se é Miguel Silva Gouveia, o actual autarca, independente, mas próximo do PS, que se recandidata com o apoio dos socialistas, do Bloco, do PAN, do MPT e do PDR, que se vai divorciar da autarquia. Ou se é o PS de Paulo Cafôfo, que procurou capitalizar as divergências entre “jardinistas” e “albuquerquistas”, com elogios a Jardim e votos favoráveis à atribuição de uma condecoração ao antigo governante, pelos serviços prestados à região autónoma, que se vai separar do histórico social-democrata. Uma proximidade que valeu críticas recentes de Carlos Pereira, deputado em São Bento, e antigo presidente do PS-Madeira.

“Aqueles que deviam contribuir para não branquear este indivíduo tão perverso para a democracia da Madeira, não cumpriram o seu papel e no intuito de oportunismo eleitoral (...) mantiveram acesa a ideia, francamente errada, de bons valores e intenções por detrás da figura cuja herança é maldita!”, escreveu o vice-presidente da bancada socialista em Lisboa, reagindo a um comício, em Agosto, em que Jardim, ao lado de Calado, falava do PS como os “talibans da incompetência”.

Agora, no pequeno palco montado nas traseiras do supermercado, Jardim recupera o discurso com o qual foi somando vitórias. Elenca as obras feitas. A água que levou à porta das pessoas. A habitação social construída. As estradas. Os apoios sociais.

Há três anos, quando era falado como possível candidato às europeias do ano seguinte, Jardim abanava a cabeça que não. Seria preciso “Cristo descer à terra”, para ele regressar à política, garantia ao Público, parafraseando Marcelo Rebelo de Sousa. Mas agora está ali, e ali vai estar até ao último dia de campanha. E as promessas feitas à mulher? “Ela sabe que eu não tenho conserto.