Um inquérito para mostrar às autarquias que os jovens têm voto na matéria — mesmo que ainda não possam votar

A Unicef juntou um grupo diverso de 18 jovens entre os dez e os 17 anos para que, juntos, formulassem um inquérito a ser aplicado a outros jovens. A ideia é auscultar o que os preocupa nas suas cidades e mostrar as conclusões aos poderes locais.

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Michael Barón/Unsplash

A “falta de espaços bem utilizados” foi um dos problemas que levaram Rodrigo Lúcio, 17 anos, a participar no projecto Tenho Voto na Matéria — ainda que lhe falte um ano para poder votar. O jovem lisboeta considera que “há muitos terrenos baldios que poderiam ser utilizados como espaços de lazer, mas estão a ser usados para depositar lixo”, e essa foi, precisamente, a questão que apontou nas reuniões do grupo consultivo que a Unicef criou com jovens e crianças entre os dez e os 17 anos.

O projecto ganha forma pela primeira vez e surge de “um trabalho que a Unicef tem vindo a fazer que pretende reforçar a importância da participação das crianças em todos os assuntos que lhes dizem respeito”, afiança Beatriz Imperatori, directora-executiva da Unicef. Este ano, surge uma ocasião que privilegia este trabalho: as eleições autárquicas de 26 de Setembro. E é precisamente a pensar nelas que nasce um questionário, elaborado pelo grupo consultivo, que deverá ser aplicado a crianças e jovens de todo o país e cujas conclusões deverão ser, posteriormente, apresentadas ao poder local.

Os jovens foram seleccionados de forma a “garantir diversidade”: “São de várias regiões do país, alguns são portugueses nascidos em Portugal, outros não são portugueses mas vivem em Portugal, alguns são refugiados e outros têm necessidades especiais.” No total, são 18 — e trabalharam em conjunto, debatendo e trocando ideias, para elaborar um questionário que reflicta as suas preocupações e ausculte as dos seus pares.

“As reuniões [do grupo de trabalho] aconteceram por Zoom e foram divididas em três. Começámos por ver os problemas que existiam em cada comunidade e apontá-los, para que víssemos quais estavam mais presentes na maioria dos jovens”, explica Érica Metrogos, 17 anos. “Em duas das sessões, recolhemos os dados e, na última, tratámos das perguntas e de que forma podíamos torná-las mais acessíveis aos jovens do nosso país”, continua.

Érica e Rodrigo lamentam a falta de voz que os jovens e crianças têm na sociedade. Não só no que toca a ser ouvidos pelos poderes locais (e centrais), mas até no dia-a-dia, como conta Rodrigo: “Muitas vezes queremos intervir numa conversa de mesa entre família e ouvimos sempre os adultos a dizerem: ‘Sabes lá do que falas, ainda nem trabalhas, não sabes o que é a vida’.”

E essa falta de atenção às preocupações dos jovens reflecte-se na falta de uma “política integrada das crianças ao nível local”, afiança Beatriz. “Temos vindo a perceber que existem algumas limitações do ponto de vista da organização central em dar todas as respostas e soluções às crianças. O poder local tem uma capacidade que o Governo não tem, a capacidade de maior conhecimento da comunidade e uma ligação entre as pessoas, que se conhecem e estão mais próximas.” Por isso, este é “um momento em que se provoca uma reflexão sobre qual o papel das autarquias na protecção das crianças” — que não pode recair só sobre as escolas.

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Mensagens escritas pela mãos dos jovens que participaram no grupo consultivo. DR/Unicef

O inquérito está disponível no site da Unicef até 26 de Setembro e será levado directamente a jovens e crianças de todo o país através de escolas e instituições parceiras da Unicef. Está desenhado para jovens entre os dez e os 18 anos, mas não impede crianças mais novas ou jovens mais velhos de responder. Os resultados desta auscultação deverão ser entregues pelos próprios jovens às autarquias.

Érica espera que “realmente seja feita a diferença e haja alguma mudança” — e que assim se abra uma porta “para que os jovens possam intervir mais nas decisões da sociedade”.

Rodrigo lembra que “os jovens têm uma vida mais activa na cidade” e, por isso, até conhecem melhor alguns dos problemas das mesmas, ao invés dos adultos — e presidentes de câmara — que “estão a resolver o seu trabalho no escritório”.