SL Benfica: O risco de comprometer o futuro

Demasiados benfiquistas estão a desvalorizar o futuro em nome do sonho de elevar a presidente o poster que penduravam na porta do quarto. Não há razão, só emoção.

Em Julho escrevi aqui que era chegado o tempo dos formalismos, sugerindo que os órgãos societários do Sport Lisboa e Benfica se deveriam mostrar à altura das difíceis circunstâncias que se seguiram à queda de Luís Filipe Vieira. Hoje gostava de apelar a um exame de consciência de todos os benfiquistas.

A decisão de não candidatura de João Noronha Lopes deve ser uma preocupação para todos os benfiquistas. Podemos suavizar essa responsabilidade lembrando que ele próprio, no rescaldo da noite eleitoral, disse claramente que não voltaria a concorrer. Estou convencido, porém, que há uma outra razão que o afastou, pelo menos tão forte quanto a primeira: a unanimidade quase juvenil que se sente em torno de Rui Costa.

Demasiados benfiquistas estão a desvalorizar o futuro em nome do sonho de elevar a presidente o poster que penduravam na porta do quarto. Desejam que o herói da sua adolescência se torne no presidente da sua vida adulta, encontrando desculpas por cada demonstração de que o que muda é para que tudo fique na mesma. Não há razão, só emoção. Como benfiquista, como candidato ao conselho fiscal de João Noronha Lopes nas últimas eleições, sinto-me também responsável por não ter sido capaz de contribuir para alterar esta letargia dos benfiquistas.

Não me interpretem mal: acredito convictamente no princípio de que a maravilha da democracia é esse prazer de viver num mundo de inúmeras alternativas, mesmo quando não são as nossas. Os benfiquistas estão habituados a isso, sobretudo aqueles que votam: não será a primeira vez que muitos deles vivem com um presidente em quem não votaram.

Não devia, porém, ser tão difícil a cada um de nós perceber o evidente. O sucesso desportivo já não é compatível com gestão por impulsos que, no final do dia, deixam mágoa desportiva e dor financeira. É evidente que o Benfica que existe não é a desorganização do passado. Mas está longe de ser a organização em que precisa de se transformar para, no futuro, garantir o sucesso desportivo sustentável. Um clube moderno não se vende nem a estados nem a empresários. Procura parceiros no universo em que todos entendem que a margem do negócio está no próprio sucesso desportivo – e não nas franjas do carrossel que movimenta a venda de jogadores.

Nesse exame de consciência, benfiquistas, procuremos as forças que nos renovem o ânimo para manter a pressão sobre os membros da Assembleia Geral para votarmos, com firmeza, na alteração do regulamento eleitoral. Para acompanharmos com entusiasmo esses tantos benfiquistas que nunca abrandaram a sua luta por um clube mais democrático, escrutinando com rigor orçamentos anuais e os negócios constantes de troca de jogadores.

Reparem como, mais uma vez, é tão conveniente esta aparente zanga em torno da venda de acções… No final, paga o Benfica.

Caros benfiquistas, será por nossa culpa se continuarmos a ter um clube menos democrático do que a história do nosso Benfica merece. Não temos o direito de desistir.

Sócio 5000 do Sport Lisboa e Benfica