“Uma praia no Barroco” e “Lose Control” são algumas das peças portuguesas presentes na Semana de Design de Milão

Entre explosões de metal e carrinhos de gelados, os artistas portugueses regressam a Itália. Os seus trabalhos podem ser vistos até sábado.

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Sistemamanifesto

Depois de um ano de pausa forçada devido à pandemia, a Semana de Design de Milão volta a abrir as suas portas físicas na cidade italiana. Entre as várias empresas de mobiliário e decoração, ateliês e designers expostos, Portugal abriu a semana divulgando o mármore alentejano e continua com nomes como a dupla Aires Mateus, ou o artista Mircea Anghel.

Uma Praia no Barroco de Aires Mateus. Sistemamanifesto
Lose Control de Mircea Anghel. Sitemamanifesto
Lose Control de Mircea Anghel. Sitemamanifesto
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“Uma Praia no Barroco” é o nome da exposição apresentada pelos irmãos Manuel e Francisco Aires Mateus, que queriam com a sua obra celebrar um momento de reencontro da sociedade depois do isolamento pandémico. Com uma cabana de praia e um carrinho de gelados, que choca propositadamente com a sobriedade do ambiente arquitectónico do pátio principal o edifício barroco, Aires Mateus fez do Palazzo Litta um sítio de diversão e convívio.

“Depois de dois anos de silêncio provocados pela covid-19, pensámos em representar a ideia de estarmos juntos, dos festejos, da liberdade, da leveza — coisas que precisamos no momento”, explicou Manuel Aires Mateus, citado pelo DesignBoom. E, sim, os visitantes podem realmente comer os gelados. “Era muito importante para mim que isto fosse uma espécie de espaço de convívio e de passagem, porque na verdade é isso que se espera de uma festa: passamos por lá, comemos um gelado e encontramos alguns amigos.” 

Por sua vez, Mircea Anghel, o artista romeno que vive e trabalha em Portugal há praticamente 20 anos, lançou em Milão três das suas mais recentes peças de mobiliário, com preços a rondar os 50 mil euros e construídas através de uma junção improvável de materiais — por um lado, com madeiras altamente cuidadas e feitas à mão, por outro, com volumes de metal moldados pela força de explosões. 

Peça 1 por Mircea Anghel. Richard John Seymour
Peça 1 por Mircea Anghel. Richard John Seymour
Peça 2 por Mircea Anghel. Richard John Seymour
Peça 2 por Mircea Anghel. Richard John Seymour
Peça 3 por Mircea Anghel Richard John Seymour
Peça 3 por Mircea Anghel Richard John Seymour
Peça 1 por Mircea Anghel. Richard John Seymour
Peça 2 por Mircea Anghel. Richard John Seymour
Peça 2 por Mircea Anghel. Richard John Seymour
Peça 3 por Mircea Anghel Richard John Seymour
Peça 3 por Mircea Anghel Richard John Seymour
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Richard John Seymour

“Sempre trabalhei e dominei a madeira, sei muito sobre como é que ela funciona e como é que consigo moldá-la. Mas o metal? Como é que se trabalha com metal?”, pergunta Mircea Anghel, em conversa com o PÚBLICO. Foi nesta procura que surgiu a ideia dos explosivos, estes que mais tarde serviram de ferramenta para “perder o controlo” num processo de produção, por vezes, demasiado meticuloso — “surpreendeu-me o quão frágil tudo pode ser. Olhamos para uma peça de ferro que não conseguimos moldar, mas que sob grande pressão se torna líquido, se torna papel”, diz o artista sobre o processo.

As explosões ocorreram numa zona rural de Oleiros, em Castelo Branco, e foram supervisionadas por uma equipa especializada em explosivos. As gravações foram compiladas posteriormente num filme, dirigido por Frederico Velez, cinematógrafo associado a obras como Lisbon Underground (2017), Pragulic (2019) e Sonntag (2019).

Desenhada juntamente com a Artworks, organização de produção artística,  “Lose Control” é para Anghel uma demonstração de como o controlo não está, na maioria das vezes, nas nossas mãos, seja na construção destas peças ou na própria vida. E também não tem de estar. “A cada explosão não sabíamos qual seria o resultado. Ficávamos curiosos com o que poderia resultar dali, mas com receio de perder o que já tínhamos. Acabámos sempre por apreciar aquilo que víamos.” 

O uso de elementos contrastantes que casam uns com os outros é já uma estratégia usada pelo artista em trabalhos anteriores, como na série “Pico Table”, de 2020, que combinava peças de madeira trabalhadas, com pedras mantidas no seu estado mais natural e inalterado possível. 

Pico Table (2020) Zé Maria Leitão de Sousa
Pico Table (2020) Zé Maria Leitão de Sousa
Pico Table (2020) Zé Maria Leitão de Sousa
Pico Table (2020) Zé Maria Leitão de Sousa
Pico Table (2020) Zé Maria Leitão de Sousa
Pico Table (2020) Zé Maria Leitão de Sousa
Pico Table (2020) Zé Maria Leitão de Sousa
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Zé Maria Leitão de Sousa

Recentemente, o artista mudou o seu estúdio para a Herdade da Barrosinha, no Alentejo, para se focar não só em peças de mobiliário, mas iniciar “um pólo de criação de produção cultural”, conta. “Um projecto que vai exigir uma presença bastante grande e ao qual vou dedicar a maior parte do meu tempo”, garante.


Texto editado por Bárbara Wong