Nova Iorque 2021: a metamorfose está em curso

A cidade de Nova Iorque é a testemunha principal do horror que mudou o mundo a 11 de Setembro de 2001. Don DeLillo partiu desse lugar de observador para escrever um dos livros mais marcantes sobre o trauma quando se pensava que a escrita não seria possível tão cedo. Vinte anos depois, o que mudou? Até que ponto o trauma permanece e o medo se metamorfoseou numa norma que não assenta na cidade que o mundo se habituou a ver como a grande metrópole da indisciplina?

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REUTERS/Lucas Jackson

Sentado num restaurante de comida rápida na Segunda Avenida, o homem viu passar uma procissão de pessoas silenciosas. Homens e mulheres cobertos de pó branco caminhavam em grupos de dois, três, cinco, sozinhos. Iam para onde? Pareciam ir simplesmente no sentido absolutamente contrário ao lugar de onde vinham, afastavam-se dele a passos. Na direcção oposta a essa marcha humana, só a velocidade e o ruído de sirenes de ambulâncias, carros de polícia, de bombeiros. Iam embora? Para onde? Para o quê?, como perguntaria uma personagem de Don DeLillo acerca dos que saiam, conjugando nessas perguntas a linguagem e o olhar “cosmocêntrico” dos nova-iorquinos. O centro do mundo era ali, as pessoas olhavam pelas janelas e queriam continuar a ver isso, a sentir isso.