Gap Year: o ano que não se perde

Se o conceito do Gap Year estivesse mais presente na cultura portuguesa na transição do ensino secundário para o superior, teríamos possivelmente uma grande mais-valia para as empresas e para os recém-licenciados que entram no mundo laboral, onde hoje o que os diferencia é uma nota final de curso que vale o que vale.

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Ronaldo Liu/Unsplash

O percurso do estudante português é certinho e direitinho. Acabado o ensino secundário, segue-se de imediato o ensino superior. O Gap Year, conceito que nasce no Reino Unido e remonta aos anos 60, é hoje uma realidade na vida dos jovens dos países mais desenvolvidos que fazem um pausa nos seus estudos após o término do ensino secundário, não seguindo imediatamente para a universidade.

Em Portugal, o conceito, não sendo desconhecido, ainda é — infelizmente — pouco usado. Tal poderia trazer aos jovens, para além da aquisição de grandes experiências pessoais e de enriquecimento individual, uma consciencialização sobre a realidade daquilo que se quer mesmo fazer. Se analisarmos os números de um estudo feito em 2018 pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), cerca de 29% dos alunos abandonaram o ensino superior, sendo que 11% dos estudantes optam por mudar de curso.

Na verdade, quando todos nós saímos de alguma forma da nossa zona de conforto, onde é comum a família e amigos estarem por perto para a ajuda na resolução de algumas questões, poderá nascer algum conflito interior, mas a experiência adquirida com o Gap Year, que confronta de alguma forma o jovem na resolução de questões, ajudará que essas mesmas questões sejam resolvidas por eles mesmos. E no regresso tudo poderá parecer ser mais simples. 

O desenvolvimento de soft skills e a capacidade de resolução de conflitos ou mesmo mais interacção social são ferramentas essenciais para a empregabilidade.

No campo da empresas e na altura da contratação, não restam dúvidas: as empresas de hoje aplaudem o jovem que fez um ano de pausa porque o que se deseja é encontrar, além de quadros qualificados, alguém que conheça muito mais do que a escola e os livros. Em suma: o simples conhecimento da teoria pode não ser suficiente.

Em determinados empregos a experiência que se adquire lá fora é mesmo decisiva na hora de contratar, e qualquer experiência que fuja da rotina do caminho académico normal, seja em Gap Year ou mesmo em Erasmus, é e sempre será valor acrescentado. Isto porque conhecer outros ambientes e outras culturas desenvolve competências que são notórias no debate de ideias e na procura de soluções às questões que se vão apresentando.

Tudo o que foi feito neste período de pausa e a visão do mundo que se foi adquirindo em prol de uma mais certeira escolha profissional, à luz de quem contrata, é sem sombra de dúvida um grande ponto a favor na análise de um currículo.

Se o conceito do Gap Year estivesse mais presente na cultura portuguesa na transição do ensino secundário para o superior, teríamos possivelmente uma grande mais-valia para as empresas e para os recém-licenciados que entram no mundo laboral, onde hoje o que os diferencia é uma nota final de curso que vale o que vale. Ter a visão do mundo e de como tudo funciona pode ser muito mais importante do que um 20 e a maturidade que se vai adquirindo trará mais certezas sobre o futuro. E isto não parece ser nada mau.