O egoísmo do “não temos que chegue para todos”

O Governo britânico vem agora dar razão à ignorância ao aprovar uma lei com o intuito de reforçar o combate à imigração ilegal através, entre outras medidas, de penas de prisão até quatro anos para refugiados e exilados que entrem no Reino Unido sem autorização.

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Folco Masi/Unsplash

“Não temos que chegue para todos!”, dizem-nos repetidamente não os britânicos, aqui nascidos e criados, mas os nossos conterrâneos, sim, leram bem, portugueses de gema e os mesmos portugueses que um dia tiveram de atravessar este mar à procura de uma vida melhor em terras de Sua Majestade.

Apesar dos nossos esforços, relembrando o nosso exemplo como imigrantes, a resposta é sempre a mesma: “Mas nós viemos para trabalhar e eles vêm para viver dos ‘benefits'”. Mesmo quando o nosso interlocutor também usufrui dos mesmos “benefits”, os famosos, e noutros tempos generosos, apoios sociais britânicos entre casa, educação e cuidados de saúde gratuitos.

E se hoje já não é assim, a fama destes apoios perdura, servindo ao mesmo tempo de bandeira e desculpa para quem ignorantemente rejeita quem vem de fora à procura de um lugar ao sol no Reino Unido.

Infelizmente, o governo britânico vem agora dar razão à ignorância ao aprovar uma lei com o intuito de reforçar o combate à imigração ilegal através, entre outras medidas, de penas de prisão até quatro anos para refugiados e exilados que entrem no Reino Unido sem autorização.

Obviamente, quem cria uma lei com este gabarito nunca fugiu de uma guerra, nunca foi uma criança a fugir a meio da noite na mala de um carro, sozinha e sem nunca mais ver os pais e os irmãos a caminho de parte incerta sem saber nas mãos de quem mas ao menos viva.

Quem cria uma lei destas nunca teve a vida em risco fruto de orientações políticas, religiosas ou sexuais “desviantes” no país de origem, obrigados a fugir tantas vezes apenas com a roupa do corpo. 

E quem cria uma lei destas nunca teve de atravessar países e fronteiras à procura de segurança para si e para os seus, arriscando a vida em barcaças sobrelotadas no meio de mares inclementes, quiçá tão mortais como mortais são as mãos do governo britânico para quem vem à procura de ajuda.

E quando os números de refugiados no Reino Unido são sobejamente inferiores aos dos congéneres europeus, é de todo impossível compreender a razão por detrás de tanto egoísmo da parte de um dos países mais ricos do mundo.

A razão, de acordo com Priti Patel, está na vontade do povo britânico, cansado de ver as portas permanente abertas para quem vem de fora. Isto num país que muito tem beneficiado da imigração e à qual tanto deve.

Mas de pouco vale zurzir argumentos quando Priti Patel coloca no mesmo saco violadores e refugiados, condenando uns e outros por igual quando se pisa ilegalmente o solo britânico.

O mundo, este mundo, está agora ainda mais egoísta e os nossos conterrâneos esfregam as mãos de contentes diante destas medidas. 

Incapazes de reconhecer no outro um igual, fecham a porta a quem mais precisa sem compreenderem, ou sem quererem compreender, como o destino do outro que nos bate à porta não é senão o destino de todos nós. Ou não estivéssemos todos no mesmo barco e o tempo, meus amigos, o tempo não está de feição.