Milhares de activistas, jornalistas e políticos alvos de “programa espião” usado por governos

O grupo NSO, uma empresa tecnológica com sede em Israel, terá utilizado os seus serviços para ajudar clientes a aceder a smartphones de jornalistas, activistas e executivos em todo o mundo. A lista de alvos inclui 50 mil números de telefone.

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O grupo NSO nega as acusações e diz que está a considerar uma acção judicial por difamação Kacper Pempel

O grupo NSO, uma empresa tecnológica com sede em Israel que vende ferramentas para os governos monitorizarem e localizarem grupos de terroristas e criminosos, terá utilizado os seus serviços para ajudar os seus clientes a aceder a smartphones de jornalistas, activistas dos direitos humanos e executivos em todo o mundo. Pelo menos 37 telemóveis terão ficado comprometidos com vírus da NSO, mas a lista de alvos, obtida numa fuga de informação da empresa israelita, tem mais de 50 mil números de telefone, incluindo os de membros da família do jornalista saudita Jamal Khashoggi.

A informação foi avançada este domingo numa investigação liderada pela Amnistia Internacional e pela Forbidden Stories, uma plataforma com sede em Paris dedicada a partilhar e publicar o trabalho de jornalistas perseguidos. O projecto envolveu 17 organizações de jornalismo internacionais como o Washington Post, Le Monde, e o The Guardian.

A equipa internacional conseguiu analisar 67 dos telemóveis na alegada lista de alvos do NSO. Destes, 55% (37) tinham vestígios do vírus informático Pegasus. Trata-se de spyware, um programa informático que permite extrair mensagens, fotografias e emails, bem como activar microfones e câmaras à distância. Por norma, estes serviços apresentam-se como produtos para “garantir a produtividade” de pessoas, por exemplo, menores de idade. Quando são vendidos a governos, o objectivo é evitar ataques terroristas e crimes.

Só que a lista completa de números de telefone revelados este domingo inclui o contacto de 65 executivos, 85 activistas pelos direitos humanos, 189 jornalistas, e mais de 600 políticos de 50 países. Segundo o jornal Guardian, um dos números na lista era do jornalista mexicano Cecilio Pineta Birto que foi morto a tiro em 2017. Como o telemóvel de Birto nunca foi encontrado, não se sabe se o aparelho estaria infectado com o vírus Pegasus. 

Nas próximas semanas, as organizações mediáticas envolvidas na investigação vão publicar uma série de trabalhos a detalhar as pessoas que foram espiadas através do Pegasus. 

NSO pondera acção judicial por difamação

O grupo NSO nega as acusações e diz que está a considerar uma acção judicial por difamação. Em resposta a questões do PÚBLICO, um porta-voz do NSO nota que a investigação da Amnistia Internacional está “cheio de pressupostos errados e teorias não corroboradas que levantam sérias dúvidas sobre a fiabilidade e os interesses das fontes.”

De acordo com a equipa, a lista de 50 mil números de telefone não foi roubada dos servidores da empresa “visto que tais dados nunca existiram nos nossos servidores”. 

A secretária-geral da Amnistia Internacional, Agnes Callamard, argumenta, em comunicado, que a investigação realizada mostra como “spyware da NSO é uma arma de eleição para governos repressivos que procuram silenciar jornalistas, atacar activistas e esmagar a dissidência, colocando em perigo inúmeras vidas”.

Não é a primeira vez que as actividades da NSO levantam suspeitas. Entre Julho e Agosto de 2020, a Citizen Lab, um laboratório de investigação da Universidade de Toronto, no Canadá, descobriu que 36 telefones de jornalistas da Al Jazeera tinham sido acedidas ilegalmente utilizando a tecnologia PegasusUm ano antes, em 2019, o serviço de mensagens WhatsApp, do Facebook, processou o grupo NSO por um ataque dirigido a um número restrito e seleccionado de utilizadores através da tecnologia Pegasus.

O grupo NSO não é a única empresa que oferece este tipo de serviços. Esta semana, um relatório separado do Citizen Lab, revelou que outra empresa de spyware em Israel, a Candidu, usou centenas de sites falsos de organizações como a Amnistia Internacional e o movimento Black Lives Matter para infectar os computadores e telemóveis de activistas, dissidentes políticos e jornalistas.