Na variante do Fojo, em Braga, quase todos aceleram para lá do que devem

Estudo do CIEC, da Universidade do Minho, concluiu que três em quatro dos condutores que passam por aquela via seguem acima do limite de velocidade. O investigador José Precioso, que orientou a investigação, defende que só é possível contornar este problema através de uma maior fiscalização. Esse incumprimento, diz, vê-se em toda a cidade.

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No ano passado, o distrito de Braga foi o 4.º com “maior prevalência de acidentes” Adriano Miranda

Para o investigador José Precioso, do Centro de Investigação em Estudos da Criança (CIEC) da Universidade do Minho, Braga “tem dois problemas” no que à circulação automóvel diz respeito: os “engarrafamentos, que dificultam o acesso ao interior da cidade”, e o sucessivo “incumprimento dos limites de velocidade”. Já se sabe que, quanto mais se acelerar, “maiores são as emissões, maior é o ruído, mais combustível a pessoa gasta e maior é o risco de acidente e de gravidade”. Mas nem isso faz descer o ponteiro do velocímetro — pelo menos na variante do Fojo, onde 75% dos condutores “estão a ultrapassar os limites apresentados”.

Essa é a conclusão de um estudo observacional, elaborado no âmbito da unidade curricular de Temas da Saúde e Ambiente, que José Precioso lecciona, do mestrado em Ensino do 1º Ciclo do Ensino Básico e de Matemática e Ciências Naturais no 2º Ciclo do Ensino Básico da academia minhota. O professor universitário orientou o trabalho de Cláudia Nunes e Mariana Branco, estudantes do mestrado, que contou também com a doutoranda Regina Alves.

“Como não temos radar móvel, aproveitamos o radar informativo que lá existe. Primeiro, fomos ver se o radar funcionava e se dava a velocidade real”, explica o investigador. Mas o radar indica uma velocidade “quatro ou cinco quilómetros por hora inferior” à real, pelo que “os dados foram inflacionados pela negativa”; posto isso, os números registados “serão superiores”, aponta José Precioso.  

Ao longo de “duas tardes” de Março último, entre as 15h e as 17h — o critério foi “evitar congestionamento”, daí que se tenham priorizado horas de maior fluidez do trânsito — registou-se a velocidade a que circulavam 300 veículos naquela via através dos números que o radar informativo ali instalado marcava. No sentido nascente-poente (em direcção à zona de Gualtar), o limite de velocidade, que é de 50 quilómetros por hora, foi desrespeitado por 93% dos automobilistas; desses, “mais de metade cometeriam uma infracção muito grave”, já que circulavam a mais de 70 quilómetros por hora. Na faixa de rodagem inversa, é esse o limite de velocidade — que, ainda assim, “foi ignorado em 56% dos casos, mas sem infracções muito graves”.

Em 2017, o CIEC fez um estudo semelhante. Desde então, comparando-se as mesmas horas do dia, os valores para os dois sentidos subiram, respectivamente, 11% e 25%. Nesse ano, explica o investigador, a pesquisa foi “muito mais ambiciosa”, já que a amostra era de mil. Foram também analisados vários períodos do dia (manhã, tarde e noite) e condições meteorológicas. 

Um incumprimento “muito generalizado”

Apesar de o estudo se centrar na variante do Fojo, José Precioso considera que o limite de velocidade é desrespeitado em vias semelhantes da cidade. “Eu não posso generalizar, mas, como podemos imaginar, este problema é igual [noutras zonas da cidade]. Mas só posso dizer isto como observador atento e por circular em Braga”, nota. Ainda assim, não tem dúvidas de que existe um incumprimento do Código da Estrada — pelo menos neste aspecto — “muito generalizado” no concelho.

O que fazer para pôr um travão a este problema? “O tempo da pedagogia passou. Para mim, era pôr os radares a multar, para as pessoas perceberem. É importante cumprirem um limite, como eu acho que é, até por motivos ambientais. Uma das maneiras de mitigar as emissões é reduzir a velocidade, toda a gente sabe. Isto era uma maneira de reduzir o ruído, a poluição do ar e o risco de acidentes”, sugere. Fiscalizar a velocidade, diz, é uma medida “eficaz”: “O radar da VCI [no Porto] voltou a ser punitivo e os acidentes voltaram a diminuir.”

No ano passado, o distrito de Braga foi o 4.º com “maior prevalência de acidentes”, registando 2748, atrás de Lisboa, Porto, Setúbal e Açores. Ainda assim, “a sinistralidade rodoviária e o número de mortos e feridos resultantes de acidentes de viação” em 2020 “diminuíram cerca de 26%, comparativamente ao ano anterior” a nível nacional. A tendência manteve-se no primeiro trimestre de 2021, de acordo com um balanço da actividade de fiscalização rodoviária da PSP divulgado em Abril deste ano. 

Já segundo o relatório de sinistralidade a 24 horas e de fiscalização rodoviária de Fevereiro da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), cujos dados foram conhecidos em Maio, “o índice de gravidade dos acidentes” registados este ano “foi superior ao apurado nos mesmos meses de 2020” — mesmo com uma redução no número de desastres. Para José Precioso, “mais espaço na estrada e menos trânsito” leva a que “as pessoas tenham a tendência para acelerar” para lá dos limites. E isso foi visível em apenas duas tardes passadas na variante do Fojo: sem grandes obstáculos, “a prevaricação aumentou”. Muitas vezes para se chegar “à fila de saída” e esperar-se “praticamente o mesmo tempo”.