João Barradas estreia recital num “ambiente de quase meditação”

Sob o lema O Velho e o Novo Misticismo, o multipremiado acordeonista João Barradas apresenta este sábado na Culturgest (19h) um recital que convida à meditação.

Foto
João Barradas ALFREDO MATOS

Há um ano, um mês antes de ser declarada a pandemia, João Barradas estava a lançar em simultâneo dois novos discos e a tocar na Gulbenkian, em solo absoluto, peças de Keith Jarrett a Bach. Agora volta aos palcos, desta vez na Culturgest e a convite desta, para imergir num programa que ainda não tinha explorado: o da música minimalista. Será este sábado, às 19h, no átrio central do edifício-sede da CGD, em Lisboa.

No anúncio oficial do concerto, escreve-se: “Quando nos faltam interlocutores, a música inventa os seus próprios mundos, com as suas próprias religiões e personagens, tratando de escrever as suas linguagens, bíblias ou dicionários, transformando magia em misticismo”. Daí que a Culturgest tenha desafiado João Barradas “a recolher alguns momentos desse mundo místico, trazidos da tradição europeia da música clássica para a destreza da improvisação contemporânea”. O resultado é um programa assente em quatro peças: Fratres (1977), de Arvo Pärt; Ave Generosa (séc. XII), de Hildegard von Bingen; Prelude Op. 16 - No. 4 in E flat minor (1895), de Alexander Scriabin; e, por fim, uma peça do próprio João Barradas Choral, composta em 2020-2021.

Uma matriz de improvisação

João Barradas explica, ao PÚBLICO, o conceito: “Queríamos que o tema tivesse uma ligação directa aos compositores que íamos apresentar. Logo aí apareceu uma ideia ligada à música minimal e o recital, apesar de ser apresentado com as peças, tem uma matriz de improvisação enorme. Começará de uma forma improvisada e terminará dessa mesma forma. Não excluindo, obviamente, o material tal qual os compositores o escreveram, porque a partitura assim o dita, mas há um reformular desse mesma partitura. Em suma, será um somatório de improvisação mais a composição original”

A sequência das peças, justifica-a o músico com o próprio conceito do recital: “Começámos logo com uma referência nesta estética, Arvo Pärt, obviamente; segue-se Hildegard von Bingen, que tem um lado espiritual medieval, passando pela teosofia do Alexander Scriabin, e termina com uma peça para acordeão, sintetizador e voz, Choral, que eu escrevi. Comparativamente ao que tenho feito, vai ser um recital onde o espaço e o tempo para a escuta (apesar de ser um recital pequeno, 40 a 50 minutos) vai ser muito importante. Quando falo em espaço, refiro-me até a silêncio. Porque o próprio local onde vamos fazer, o átrio, já convida, pela própria acústica do espaço, à introspecção. O silêncio, o espaço e o fluxo de concentração criam um ambiente de quase meditação”.

Tal como tem sucedido noutras apresentações de João Barradas, será em solo absoluto: “É tudo tocado ao vivo por mim, em acordeão acústico normal, acordeão sintetizador, que tem sido desde sempre um companheiro para mim, e, na peça da Hildegard, vamos ter também electrónica, com o software standard da música contemporânea.”

Porta para novas experiências

A voz, em Choral, vem de uma experiência antiga: “A voz sempre foi bastante natural para mim. Aliás, no início, quando comecei a apresentar o trio que ainda mantenho e com o qual gravei o Directions [em 2017], sempre que improvisava, cantava tudo o que tocava, sem estar ligado ao microfone. Sendo um exercício interessante para quem estava a improvisar, era também uma questão estética. E aquilo ajudava-me. Depois, durante muito tempo, não sei se por complexo ou por necessidade de estar mais estático em palco, deixei de usar essa estética. Mas depois comecei a fazer algumas experiências com a voz cantada, sem letra, como se fosse uma espécie de apontamento ao que o acordeão faz. Uma espécie daquilo a que, na música contemporânea, se chama técnica estendida, onde os instrumentistas de sopro cantam para dentro do instrumento. Concluindo: eu não vou cantar um tema, uso é a voz como extensão de acorde que estou a tocar”. Na prática, um vocalizo que se sobrepõe ao próprio som do acordeão.

Um recital pensado para disco? João Barradas diz que não, mas acha que pode conduzi-lo a novos caminhos “Foi pensado como uma primeira porta para uma experiência que possamos fazer a posteriori. E é um programa que não tenho explorado, porque não tinha abordado ainda esta parte da música minimalista, ao contrário do que tenho feito com a música barroca, com Bach, e também com a música contemporânea, com portugueses como Nuno da Rocha, ou o excelente compositor francês Yann Robin.”