A pandemia do desemprego jovem

Embora menos afectados pelo novo coronavírus, os jovens são os mais afectados pelo vírus do desemprego – os valores de desemprego jovem são praticamente o triplo do desemprego generalizado da população.

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Miguel Manso

As últimas décadas têm servido para recuperar o atraso nas qualificações da população portuguesa. Se a anterior geração de diplomados constituía uma minoria, à medida que o ensino superior se generaliza as novas gerações de diplomados vão experienciando novos desafios.

Para além da competitividade crescente entre diplomados, saliento a utilização e a remuneração pelo mercado de trabalho das qualificações, do talento e do potencial destes jovens.

Perante a crise económica decorrente da pandemia que vivemos, muitos jovens diplomados iniciam uma batalha na conquista de um primeiro emprego digno e de qualidade. Várias batalhas são travadas e marcadas pelo desgaste, pela ausência de respostas e de esperança.

Embora menos afectados pelo novo coronavírus, os jovens são os mais afectados pelo vírus do desemprego – os valores de desemprego jovem são praticamente o triplo do desemprego generalizado da população.

O que aqui exponho não corrobora discursos cépticos em relação à massificação do ensino superior. A população com ensino superior consegue, à partida, uma situação laboral mais favorável do que a daqueles que não completam um grau terciário. Contudo, pretende ecoar as vozes dos jovens diplomados para que o esforço (financeiro, de tempo, pessoal e, muitas vezes, familiar) associado à frequência do ensino superior lhes seja verdadeiramente retribuído.

Comecemos com um indicador preliminar: os salários reais dos recém-diplomados têm, em média, diminuído. Os jovens licenciados entre os 25 e 34 anos tinham, em 2018, um salário real médio 17% inferior ao assinalado em 2010.

Prosseguimos com um indicador para avaliar os benefícios salariais do ensino superior e que considera a influência das características e da idiossincrasia dos indivíduos nos seus resultados no mercado de trabalho: os prémios salariais para diplomados de mestrado e doutoramento têm-se mantido, em oposição à queda dos prémios para licenciados em cerca de 35 pontos percentuais. Dados de 2015 alertam que a diferença entre os prémios salariais auferidos pelas formações pós-secundárias CET e por diplomados do primeiro ciclo do ensino superior era bastante menor do que em 2006.

Termino com dados auto-explicativos sobre o desalinhamento entre mercado de trabalho e educação: a existência de diplomados com subutilização de competências, para além da perda económica, pode traduzir-se em frustração como resultado da menor motivação e satisfação com a ocupação. Dados recentes revelam que cerca de 15% dos diplomados do ensino superior que se encontram empregados trabalham em profissões que não exigem este nível de formação, sendo que quanto mais jovem é este trabalhador, maior a probabilidade de executar funções de baixa complexidade.

Assim, a pandemia do desemprego jovem, em particular dos jovens com maiores qualificações, merece a mobilização de várias task-forces que possam contrariar este registo progressivo de insuficiência e falta de valorização das qualificações.

Para tal, podem contribuir a aposta numa economia do conhecimento, com estímulos à contratação de jovens qualificados por parte das empresas, um programa de renovação da administração pública e o reforço do sector científico e tecnológico em Portugal.

Só assim poderemos simultaneamente superar o gap de desenvolvimento que nos atira para o fim da Europa, resgatando a geração mais jovem e qualificada da sua condição de precariedade e desalento.