Porto em risco de recuar no desconfinamento. São João alerta para quarta vaga no Norte

Avaliação desta quinta-feira deverá ditar imposição de medidas restritivas na cidade do Porto. Número de casos suspeitos de covid-19 no Hospital de São João disparou nas urgências entre 40% a 50% e a taxa de positividade aproxima-se dos 20%.

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Estação de Porto S. Bento LUSA/JOSé COELHO

O Porto está em risco de recuar no desconfinamento, depois de ter registado uma incidência acima dos 120 casos por 100 mil habitantes na passada semana, algo que colocou o concelho na lista de alerta das autoridades de saúde. Se, na avaliação regional desta quinta-feira, o número não baixar significativamente, o concelho vai ser obrigado a recuar no desconfinamento e a impor novas restrições de combate à pandemia já nos próximos dias (ver caixa de texto abaixo). Este agravamento da situação pandémica fez com que os responsáveis do Hospital de São João tenham emitido um alerta, já que nós últimos dias o número de casos suspeitos de covid-19 nas urgências daquele hospital disparou entre 40% a 50% e a taxa de positividade aproxima-se dos 20%, sendo que estava entre 1% e 2%. 

Este aumento do número de pessoas com teste positivo à covid-19 neste hospital, localizado no Porto, mostra que o aumento da incidência da pandemia que começou em Lisboa e no Algarve está agora a explodir na região Norte, disse esta quarta-feira um dos responsáveis desta unidade, admitindo uma quarta vaga na região. “Neste momento já não podemos negar que estamos numa quarta vaga, de características diferentes, mas real. É o momento de todas as estruturas se coordenarem e verificarem os seus planos de contingência”, alertou o director da Unidade Autónoma de Gestão (UAG) de Urgência e Medicina Intensiva do Centro Hospitalar Universitário de São João (CHUSJ), Nelson Pereira.

O médico falava aos jornalistas à porta do Serviço de Urgência do Hospital de São João, um dia depois de ter revelado à agência Lusa que este serviço tem sentido um aumento de 40 a 50% de casos suspeitos covid-19. Este número repercute-se numa taxa de positividade que aumentou dos 1 a 2% registados nos últimos três meses para 10 a 15% nos últimos cinco dias. “E ontem [terça-feira] chegamos praticamente aos 20%”, acrescentou Nelson Pereira.

Analisando estes dados, o director da UAG do CHUSJ reforçou a ideia de que “isto significa que a pandemia está a progredir na região Norte”, razão pela qual reforçou o alerta de que “é preciso controlar este processo antes que se chegue à situação de acréscimo de internados”.

“Isto para o Hospital de São João, que foi sempre desde a primeira vaga um hospital sentinela na região Norte, é uma situação preocupante. Esperávamos que pudesse não acontecer o alastrar da situação da região de Lisboa à região do Porto. Mas neste momento isso é inequívoco: já aconteceu”, referiu o médico.

Questionado sobre a preparação do hospital, Nelson Pereira contou que, na terça-feira, a tenta montada à porta do Serviço de Urgência “serviu pontualmente de tampão para receber doentes antes da entrada destes na estrutura central do edifício”.

Os contentores e a tenda estão “prontos para ser usados se necessário”, garantiu.

Na terça-feira, à Lusa, Nelson Pereira mostrou preocupação com as repercussões dos festejos de São João no Porto e relatou que têm recorrido ao Serviço de Urgência pessoas de outras nacionalidades, uma população que hoje o médico descreveu como “sensível do ponto de vista social” e que “está a ser afectada por esta crise”.

“A expectativa que temos para os próximos dias é que o crescimento que sentimos nos últimos dias continue nos próximos dias [devido aos festejos de São João]. Há uma população mais sensível do ponto de vista social que está a ser afectada por esta crise. São várias as nacionalidades: marroquinos, indianos, italianos, brasileiros”, sintetizou esta manhã.

Quanto à dificuldade de acesso às ADR – que são Áreas dedicadas a Doenças Respiratórias, estruturas criadas ao nível dos cuidados de saúde primários – bem como à linha de SNS24, o médico reforçou a ideia de que “é importante que os responsáveis dessas estruturas conheçam essas dificuldades para poderem intervir”.

Recusando olhar para este cenário “com dramatismo” e reforçando que “neste momento o aumento de casos não tem repercussão significativa no internamento”, Nelson Pereira deixou, no entanto, uma mensagem à população que prepara as férias de verão.

“Mantenham os cuidados de protecção. Qualquer sintoma que tenham devem contactar o SNS24 porque cada hora ou cada dia que passa em que isso não é feito são mais contactos e mais contágios, e isso é que faz a progressão exponencial da pandemia. Minimizem os contactos com pessoas com quem não coabitem. É possível ir à praia, mas se estiverem em sítios fechados com outras pessoas: sempre com máscara. Isto não tem segredo. Num ano e meio já todos devíamos ter aprendido e infelizmente ainda não aprendemos”, concluiu.