O poder do invisível na saúde do planeta

O meu filho mais novo é adolescente e faz anos hoje, dia 5 Junho – desejo que quando atingir a idade da mãe possa festejar neste dia mundial do ambiente o sucesso que a humanidade obteve ao reverter caminhos vertiginosamente perigosos para a nossa sobrevivência como espécie.

Cuidar do solo é um dever de todos – é dele que vem o nosso sustento e assim a saúde da humanidade depende da saúde do solo. Os solos contribuem com 25% da biodiversidade do planeta, invisível aos nossos olhos, e nele são criados 95% dos alimentos que consumimos. As suas funções não se esgotam aí - também purificam água, controlam cheias e fixam carbono, contribuindo para a estabilização do clima.

Os cientistas têm a responsabilidade de dar a «ver» o solo a toda a sociedade, de tornar visível o que aparentemente não passa de um suporte físico para plantas, estradas ou cidades. A FAO (a organização das Nações Unidas dedicada à agricultura e alimentação) calcula que um terço do solo mundial está significativamente degradado. Há estimativas que apontam que a cada ano uma área correspondente à produção de 20 milhões de toneladas de cereais é perdida devido à desertificação.

As causas que nos trouxeram a este estado são múltiplas: monoculturas com pouca ou nenhuma rotação, abuso de agroquímicos de síntese, compactação e impermeabilização agravada pelo crescimento urbano, entre outros. Mas talvez a perda mais insidiosa seja a da biodiversidade escondida – os organismos que fazem a diferença entre um solo vivo, fértil, dinâmico e regenerador, e um pó inerte quiçá recheado de contaminantes. Desde há duas décadas que investigadores na Escola Superior de Biotecnologia da Católica no Porto se dedicam a desenhar soluções baseadas na natureza com vista à regeneração de solos. A biodiversidade do solo é a fonte de inspiração para soluções naturais: desde os biofertilizantes aos bioinoculantes desenvolvemos cocktails de microrganismos que fixam azoto e solubilizam fósforo (nutrientes críticos ao crescimento vegetal) e criam redes de comunicação subterrânea que distribuem água e nutrientes pelas plantas e as protegem de doenças.

Tudo se passa debaixo dos nossos pés, mas deixa rasto. A produtividade de um solo pode agora ser avaliada por bioindicadores moleculares de atividade microbiana: uma ferramenta moderna que permite validar boas práticas de gestão de solos. No projeto internacional RECrop estamos a aliar técnicas ancestrais de conservação do solo e ferramentas biotecnológicas sofisticadas para identificar as práticas mais sustentáveis para diferentes tipos de solos agrícolas. Porquê o RE? É uma REde de 12 parceiros em 7 países da Área Geográfica do Mediterrâneo sintonizados na urgência de devolver vida ao solo para que este possa de novo auto-REgenerar-se.

O meu filho mais novo é adolescente e faz anos hoje, dia 5 Junho – desejo que quando atingir a idade da mãe possa festejar neste dia mundial do ambiente o sucesso que a humanidade obteve ao reverter caminhos vertiginosamente perigosos para a nossa sobrevivência como espécie. E o solo, como não pode deixar de ser, é a base desse novo percurso.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico