Voltar? Não é uma opção

A verdade é a de nenhum de nós querer voltar. No meu caso, no meu país que é o teu, 20 anos depois ainda não há nada à minha espera. Ainda não há nada para que voltar.

Foto
Jorgen Berglund/Unsplash

5 de Setembro de 2007, quarta-feira. Não trago o dia na memória, trago o dia no corpo e em tudo o que o corpo hoje é. Nem podia ser de outro modo. Porque a 5 de Setembro de 2007 parti. Parti para nunca mais voltar. Porque é que eu é que tinha de me ir embora e mais ninguém? Estaria algo, ou alguém, do lado de lá à minha espera? 

Para já, não, nada, apenas o dinheiro no bolso, algum, 3000 euros e não me podia queixar. 3000 euros e três meses para encontrar algo, finalmente algo para me segurar a algo com todas as forças e todos os dentes. Um acto de desespero. 

Terminal das partidas e despedidas do aeroporto de Lisboa: estás, ainda hoje e tantos anos passados, agarrada à minha irmã, ela agarrada a ti, as duas a chorar como duas Madalenas perdidas agarradas uma à outra para não caírem derrotadas no chão derrotado de uma vida derrotada, vencida, para sempre, as forças perdidas, a vida perdida, eu perdido a caminho de um avião qualquer sem rumo nem sentido a caminho de nada, a caminho do nada, do que não se consegue ver nem alcançar, só se sabe que é longe, é muito longe e não, nunca mais nos voltaremos a ver.

Queres certezas? Só esta. Dependendo de mim, meu amor, nunca mais nos voltamos a ver. Não enquanto vivermos assim, sem nada, num país que é suposto ser nosso mas onde nada nos pertence. Não enquanto não pudermos andar de cabeça erguida com objectivos, sonhos, nada de especial, apenas o que toda a gente tem, uma casa, trabalho, férias uma vez por ano, um café de vez em quando, vontade de falar com os amigos, anos de vida pela frente, planos a dois, vontade de rir, vontade de escrever a pontos de me esquecer do tempo, da música que pus a tocar há meia hora, de mim, de tudo, mas vontade. A mesma vontade que nos falta quando é suposto estarmos de volta a casa e, no entanto, os punhos crispados, a fome e a falta de vontade de comer, o dinheiro contado, as discussões sem fim nem sentido, a nossa relação por um fio e com razão, os esquemas e artimanhas e a energia que se gasta quando nos falta um euro que seja e para tudo nos falta um euro, se não fossem os teus pais morríamos à fome.

Somos capazes de matar pelo pouco que temos, nada, não temos nada, temos pó e precariedade, insultos, o orgulho ferido depois de anos de estudo e o canudo debaixo do braço, o desdém dos vizinhos, para quê estudar quando o que é preciso é trabalhar, mas por mais que gritemos ninguém nos ouve quando tudo o que queremos é isso mesmo: trabalhar. Mas condignamente. Não é preciso pedir muito. Sem que nos cuspam à passagem. Sem humilhações. Por direito. Porque só nós sabemos o que nos custou para aqui chegar: a geração mais bem formada de sempre. 

E se calhar por isso é que me fui embora. Não sei. É um suponhamos? É um talvez? Eu sei que não é. Não foi. Foi um voltar de costas, foi um não olhar para trás para não me transformar em sal, para não ver Lisboa a arder, Portugal a arder.

E não, nunca mais voltaria ao meu país. Só morto. Por vergonha. Vergonha de deixar tudo para trás, vergonha da vida que tivera até então, a vergonha de ter perdido, de ter falhado, de não ser um homem, nunca fui, não sou, um desertor talvez na vergonha de quem foge cobardemente com dinheiro que nem sequer era meu, parte teu, parte da minha avó, outra parte meu, mas se assim não fosse nem ao autocarro conseguiria chegar, para não falar chegar a outro país.

E se a minha história é o que é, o que dizer de quem foge dos genocídios, das perseguições políticas e religiosas, das ameaças, das guerras, atentados, torturas e violações em massa, das ditaduras e despotismo, da miséria, da pobreza e das doenças, da morte em vida, da morte em pé, da morte, da morte, da morte? 

Quem somos nós para julgar quando nos atiramos ao mar agarrados a crianças e garrafas de plástico a fugir de tudo, a fugir da raiva e ódio das nossas vidas que não são vidas, são sofrimento físico e mental, dia após dia após dia após dia sem uma saída, apenas o mar e a outra margem do mar ou então os braços do mar para nos segurarem com toda a força, vai ficar tudo bem, vais ver, vai ficar tudo bem no fundo do mar.

Muito mais há para dizer. Mas não há tempo nem espaço. A verdade é a de nenhum de nós querer voltar. No meu caso, no meu país que é o teu, 20 anos depois ainda não há nada à minha espera. Ainda não há nada para que voltar. E temo que daqui por 20 anos, pela altura da reforma, ainda não haja nada por que voltar: o bom tempo, uma casa paga a pronto fruto de uma vida lá fora. E pouco mais. Um mergulho no mar. Mas o país, o país que eu deixei em 2007, estará exactamente na mesma, precário, desigual, injusto, presa fácil do nepotismo numa terra onde quem mais tem olha de lado para os demais num misto de egoísmo, ignorância e crueldade como se fosse nossa a culpa de um dia nascer.

Enquanto assim for, os necessitados, jovens, velhos, capazes ou menos capazes, os cérebros e a mão-de-obra, o futuro, a força, a energia de um país continuará a ser suprida em prol dos outros, dos outros países, das outras terras que não a nossa. Se lá chegarmos.

Para os que não chegam nem nunca hão-de chegar, sem forças para nadar, andar ou lutar, vencidos pelo cansaço, resta-lhes a paz, finalmente a paz, finalmente em paz. E enquanto nos faltar a empatia para perceber como as suas histórias são as nossas, partir será sempre uma certeza.