“Não se pergunta o que é que uma mulher faz, pergunta-se a quem é que ela pertence”

A privação do próprio nome a que a mulher casada se submete é, ainda hoje, universalmente, uma forma de sexismo socialmente aceite.

We don’t ask what a woman does, we ask whom she belongs to” – “Não se pergunta o que é que uma mulher faz, pergunta-se a quem é que ela pertence.” Esta é uma afirmação feita por Mr Wakem, uma das personagens de The Mill On The Floss (traduzido para português como O Moinho À Beira do Rio), de George Eliot, uma das vozes femininas da literatura inglesa da época vitoriana. Mary Ann Evans, ou George Eliot, viu-se obrigada a adoptar um pseudónimo masculino (tal como, inicialmente, as irmãs Bronte usaram pseudónimos andróginos) para não ser vista com paternalismo pelos críticos literários.

Este chocante conselho, que Mr Wakem dá ao filho Philip, traduz claramente a universal coisificação da mulher no século XIX: a mulher era um mero pertence primeiro do pai, que dispunha do seu futuro e, ao casar-se, do marido. Como sinal dessa pertença, a mulher casada deveria usar o apelido do marido, já que passava para a sua posse, sendo identificada através do seu possuidor. Renunciava, assim, ao seu próprio nome, à sua origem, a uma parte integrante da sua identidade.

A própria George Eliot foi, como todas as mulheres do seu tempo (e não só), vítima desta violência. Quando, em Novembro de 1880, o jornal Times noticiou a sua morte, informou os leitores de que Mrs Cross, mais conhecida no meio literário por George Eliot, tinha sido enterrada no dia anterior no cemitério de Highgate. O nome Mary Ann Evans, o seu próprio nome, o seu eu, não foi nunca mencionado, já que à data da sua morte a escritora era casada com J. W. Cross. Mary Ann Evans tinha, há muito, deixado de existir.

Mas será que esta é uma realidade de um passado remoto, completamente ultrapassada, sem qualquer reflexo na actualidade? É óbvio que não. A privação do próprio nome a que a mulher casada se submete é, ainda hoje, universalmente, uma forma de sexismo socialmente aceite. Embora esta atitude discriminatória tenha, entre nós, vindo a decrescer nas últimas duas décadas, muitas são ainda as mulheres casadas que renunciaram e renunciam ao seu próprio nome, umas por respeito à tradição, outras por lamentavelmente pensarem que esta privação é uma manifestação de amor...

As normas sociais e a tradição, que muitas vezes se traduz em estagnação e retrocesso, ditavam esta renúncia e continuam, com alguma frequência, a fazer-se ouvir. Em alguns casos, há, posteriormente, uma tomada de consciência e a mulher deixa de usar aquele nome com que não se identifica, que não é o seu e se sentiu pressionada a adoptar.

O nosso nome é parte essencial da nossa identidade. É quem nós somos, a nossa origem. Transporta toda a nossa vida, a nossa história. Alterá-lo, renunciar a ele, omiti-lo, deixarmos de nos identificar com e através dele é tão-somente uma violência, auto-infligida de forma consciente ou não, uma violação do nosso eu.

A literatura, a filosofia e todo um discurso científico sustentavam, no século XIX, uma legislação que legalizava esta agressão à identidade da mulher, legislação essa tristemente idêntica em todas as civilizações ocidentais e cujos princípios ainda subsistem nos comportamentos e atitudes discriminatórias.

O discurso científico legitimava a minimização da mulher, justificava a sua pretensa incapacidade e ausência de direitos, argumentando que a mulher vivia à mercê da sua biologia e de todas as transformações a ela inerentes, o que a tornava instável, com uma mente mais emocional, menos lógica. Daí a sua alegada incapacidade para votar e exercer inúmeras profissões.

Também a literatura seguia esta ideologia. Alfred Tennyson diria, através de uma das suas personagens: “O homem com a cabeça, a mulher com o coração/ O homem para comandar, a mulher para obedecer.”

Será que este discurso pertence ao passado? É claro que não. Todos nós já ouvimos uma voz masculina falar condescendentemente da emotividade exacerbada desta ou daquela mulher, que constitui um obstáculo ao raciocínio lógico e à resolução de questões que dele dependam.

“Os criminosos, os idiotas, as mulheres e os menores” eram os cidadãos que estavam privados de quase todos os direitos legais ou políticos no século XIX em Inglaterra. Perante a lei, a existência da mulher casada era absorvida pela do marido, tendo aquela, por isso, de viver sob a sua protecção. Ao unir-se a um homem, a mulher perdia a sua individualidade. Como ilustração metafórica deste processo, era vulgarmente apresentada a situação do pequeno riacho que se unia a um enorme rio: o pobre riacho perdia o seu nome. O mesmo acontecia à mulher casada cujo nome era absorvido pelo nome do marido.

Assim, a mulher que casava adquiria um novo eu em tudo dependente do ser a ela superior a que se unia. A mulher era simplesmente infantilizada e sujeita a uma total submissão, que aceitava sem questionar. O seu comportamento e atitudes deveriam corresponder ao ideal masculino de que o poema “O Anjo Em Casa” (“The Angel In The House”), de Coventry Patmore, representava a expressão máxima. Este poema, teoricamente um escrito de louvor à mulher do poeta e uma descrição da mulher ideal, revela-se um texto de uma natureza extremamente violenta. Segundo o poeta, a mulher deveria culpabilizar-se pelo comportamento agressivo do marido e pedir-lhe ternamente desculpa.

É o que acontece ainda hoje, em qualquer latitude, nos comportamentos abusivos: o agressor tenta legitimar a sua agressão através de uma atitude ou comentário da vítima, quando não meramente da sua presença.

De um modo geral, o poeta diz, ao longo do seu poema, que a boa esposa tudo perdoa e tudo aceita, já que o seu principal objectivo deverá ser o bem-estar do marido!

O equilíbrio emocional da mulher, o seu próprio bem-estar, não é alguma vez referido.

Era este o código de conduta para a mulher vitoriana no século XIX. Vigente só em Inglaterra? Só no século XIX?

Viveria a mulher portuguesa da época, da primeira metade do século XX, uma realidade mais humanizada? É óbvio que não.

Este discurso desumano foi globalizante, prevaleceu durante muitos anos e ainda não desapareceu completamente. Resquícios deste atropelo da dignidade da mulher subsistem ainda em várias situações, como o já referido discurso justificativo dos comportamentos abusivos de ordem vária e também o sinal de pertença expresso pela alteração do nome da mulher no casamento. Esta renúncia constitui uma forma de submissão, um óbvio ataque à dignidade da mulher como ser humano, que muitas ainda aceitam e que a sociedade continua a apoiar.

Embora entre nós não seja já predominante, este atropelo da identidade da mulher ainda acontece em número significativo. Num passado recente, era tão somente a norma. Todos nós conhecemos mulheres que se distinguiram e distinguem na esfera política, científica, literária, entre outras, e que sempre usaram e usam o apelido dos maridos. Algumas são ainda relativamente jovens. Estamos perante figuras públicas cujo verdadeiro nome desconhecemos.

Esta forma de anonimato pode até estender-se a colegas de trabalho, a outras mulheres com quem privamos diariamente.

A feminista Lucy Stone, uma das mais relevantes lutadoras pela igualdade de direitos no século XIX, afirmava que uma mulher tinha o dever de manter o seu próprio nome, de não abdicar no casamento do respeito por si própria.

Assim, quando, depois de casada com Henry Blackwell, alguém a tratou por Mrs Blackwell, respondeu “Lucy Stone, se faz favor!”

A seu ver, o facto de uma mulher casada manter o seu próprio nome constituía uma afirmação da igualdade entre o homem e a mulher.

Esta ânsia de igualdade é poderosamente expressa pela personagem Jane Eyre no romance do mesmo nome, de Charlotte Bronte, em dois discursos veementemente feministas, lamentavelmente omitidos na maioria das adaptações cinematográficas da obra literária, numa triste e comum redução de todo o enredo à intriga amorosa. Jane não faz, nos seus discursos, qualquer tipo de acusações, mas sim meramente reivindicações, embora as acusações lhe sejam inerentes. Reclama, entre outros direitos, o da igualdade entre o casal, advogando uma união de iguais, não a submissão de um ao outro.

A renúncia ao seu próprio nome pela mulher casada é claramente um acto de submissão ao marido, de reconhecimento da sua supremacia e de desrespeito pela sua própria identidade. A mulher transforma-se, assim, em mais um pobre riacho insignificante, cujo nome é absorvido pelo do enorme rio a que se une.

Não deixa de ser incompreensível que, depois de tantos anos de evolução científica, tecnológica e de mentalidades, a discriminação da mulher continue tão presente, tão enraizada nas nossas vidas e até sancionada pela passividade e aceitação das suas vítimas.