Abrandar restrições com normas e humanidade

Ainda estamos a dar às pessoas um cumprimento ou um sorriso? Ainda estamos lembrados de saber dos nossos vizinhos? Ainda estamos a agradecer aos trabalhadores da linha de frente? Ao lado da ciência marcham e são importantes os valores humanos antigos, “os nossos valores”, nunca “antiquados”. E são esses valores que nos vão ajudar a sentir mais confortáveis e confiantes à medida que formos navegando os próximos meses.

Com o abrandamento gradual das restrições, todos nos deparamos com as questões do “como”. Como vamos administrar o “novo normal”? Como vamos “navegar” as situações outrora normais nos próximos meses? Como nos vamos sentir em todas as situações adaptativas em que agora todos necessitamos de orientação? Como vamos estar com o outro, nem longe nem perto mas de forma eficaz? E as respostas não são fáceis. Nunca experimentámos nada parecido com uma pandemia, nunca vivemos de forma tão prolongada com um perigo latente e não podemos saber, principalmente aqueles que viveram na sua pequena bolha, como nos sentiremos ao tentar a reconexão com um mundo diferente e com regras que são as gerais e as do Outro, e portanto fora do nosso controlo. Passámos por tantas mudanças, tivemos tantas incertezas e vimos a morte por perto, que afinal é “normal” sentirmo-nos um pouco desorientados e também um pouco perdidos. E a ansiedade é companheira nesse caminho feito de medos, defesas em alerta e resposta agressiva.

“Vai ficar tudo bem!?” é o que todos vimos afirmar, a que subjaz um desejo profundo e a consequente e adequada dúvida. Mas o saber vem aos cubos pequenos e a incerteza é companheira mesmo dos mais sabedores.

A ciência dá-nos algum conforto. A ciência, inovação e tecnologia de ponta, postas de imediato em conexão e ao serviço de todos, proporcionaram-nos, esperançosamente, horizontes mais desafogados. Com a vontade e necessidade de mais, é fácil esquecer que há apenas alguns meses não sabíamos se haveria uma vacina para o coronavírus, quanto mais várias à escolha. E a ciência respondeu e vai continuar a responder e a desempenhar um papel crucial no caminho que vamos prosseguir por anos.

Mas não devemos esquecer que temos outros cartuxos na espingarda. Somos condicionados pelos media e é quase obrigatório focar-nos no complexo e nos dados e resultados facultados em catadupa de forma que o trivial e o básico passam muitas vezes despercebidos.

Ao lado da ciência marcham e são importantes os valores humanos antigos, “os nossos valores”, nunca “antiquados”. E são esses valores que nos vão ajudar a sentir mais confortáveis e confiantes à medida que formos navegando os próximos meses.

Recentemente, um amigo relatava-me o seu regresso ao ginásio depois de 14 meses de ausência. Explicava que foi uma mistura de excitação e ansiedade. Apesar de ter trabalhado como médico durante a pandemia, estava realmente ansioso com o regresso até compreender que isso era provavelmente por ser uma escolha e não a obrigação ética do trabalho. Eu próprio, quando chego ao Hospital e começo a trabalhar, acaba a pandemia que fica cá fora ou por aí. Lá dentro estão os 40 anos já passados de luta contra a doença, os valores de vida e o Grupo, e afinal é o meu gabinete onde até as paredes me protegem, e só mais um dia para cumprir. Como sempre. Como quando foi o início dos doentes com sida.

Precisamos devolver esses valores à terminologia do dia a dia. Muitas vezes vistos como antiquados, colocados no canto e ignorados, temos de os recolocar no lugar que é e vai continuar a ser o seu: a linha da frente.

Respeito

Com isto, quero simplesmente dizer estima e consideração mostrando um senso de afabilidade pelos outros – e por nós mesmos. À medida que desconfinamos, precisamos permanecer atentos, cautelosos e cuidadosos mas recetivos. Precisamos respeitar a ciência e ter a certeza de que estamos a fazer tudo o que podemos para ajudar. Respeitar as mudanças que foram feitas nos serviços públicos ou no restaurante, respeitar a equipa que tem a responsabilidade de as fazer cumprir e respeitar as decisões dos nossos amigos e familiares sobre com o que eles se sentem confortáveis em fazer ou não. Respeitar-nos a nós próprios, expressando o que precisamos e o que fazemos ou o que não nos sentimos confortáveis a fazer, faz parte do nosso bem-estar mental e emocional enquanto nos reajustamos.

Paciência

Seja paciente consigo mesmo e com os outros enquanto todos tentamos regressar ao “novo normal”. Cada um de nós já passou por muita coisa mas de formas muito diversas e sentindo-as de forma diferente. Vai levar tempo a ganhar confiança nestas novas situações e vai demorar para restabelecer todas as conexões e relacionamentos. Siga o seu próprio ritmo e escolha as atividades que são prioritárias para si. Não precisa fazer tudo de uma só vez. Levará algum tempo para interiorizar as circunstâncias e definir uma mudança de vida por que estamos a passar.

Honestidade

Quando somos capazes de nos abrir e dizer às pessoas sobre como nos sentimos e sobre o que estamos preocupados ou como estamos a passar, é mais provável que elas façam o mesmo. Na experiência global compartilhada da pandemia, todos nós enfrentámos desafios e mudanças singulares. No entanto, os sentimentos compartilhados e transversais de medo, ansiedade, tristeza, desorientação, pesar e perda, fornecem-nos uma oportunidade de nos irmanar mais profundamente. É fácil tentar abstrair-se e reprimir esses sentimentos, mas se todos nós dedicarmos tempo e espaço para sermos honestos connosco e com os outros sobre quem somos e como nos sentimos, podemos realmente começar a envolver-nos e a ajudarmo-nos de modo mais significativo. E a prevenir a doença mental que se gera nesta conflitualidade.

Gentileza

Recuperar a bondade como uma das maiores virtudes do género humano ajudará todos a sentirmo-nos mais confiantes para voltar ao normal. Solidariedade era algo muito repetido na primavera passada. As fortunas acumuladas nestes tempos, bem como a miséria gerada, depressa ultrapassaram as boas intenções. Ainda falamos sobre isso?

Ainda estamos a dar às pessoas um cumprimento ou um sorriso? Ainda estamos lembrados de saber dos nossos vizinhos? Ainda estamos a agradecer aos trabalhadores da linha de frente? E velas às janelas para exorcizar o medo? E violas a tocar ao fim da tarde nas varandas? Se mostrarmos gentileza para quem está a voltar pela primeira vez ao médico após meses de medo ou à sua loja ou restaurante favorito, é mais provável que a pessoa se sinta segura em fazê-lo novamente.

De todos estes modos e a todos estes níveis, estes valores humanos básicos ajudar-nos-ão a sentir confortáveis para poder voltar a fazer as coisas que amamos e que perdemos de forma tão rápida, no desespero e impotência. Na sua simplicidade, eles constituem a própria matriz do ser Homem, Homem Bom em comunidade, e permitem-nos falar sobre o que todos nós precisamos e nos é imprescindível como humanos.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico