Inovação social para maior envolvimento cívico e político dos jovens

“Os jovens não querem saber”, mas também não são consultados na tomada de decisões políticas. Embora quase metade da população mundial tenha menos de 30 anos, dois terços dos países não consultam os jovens para a definição de políticas públicas. Criar e trabalhar a relação, o envolvimento e a confiança é determinante quando estamos a lidar com pessoas, sejam elas de que idade forem.

Foto
Nuno Ferreira Santos

A descrença, o desligamento e a desconfiança em relação às organizações e instituições são perigosos e devem-se à forma como as organizações funcionam, que está muito ultrapassada para as exigências de transparência, imediatismo e envolvimento na solução por parte da sociedade actual, caracterizada por “prossumidores” (com origem no inglês, prosumers, junta as palavras produtor e consumidor) uma característica marcada especialmente nas gerações mais jovens. A falta de transparência afasta e aumenta a descredibilização. Se queremos confiar na capacidade do cidadão (seja ele jovem ou menos jovem) de se envolver, então temos que criar mais momentos para que isso aconteça e deixar o cidadão também decidir.

Existem startups de impacto social que já estão a trabalhar no sentido de inverter a situação: a MyPolis, incubada na Casa do Impacto, é uma ferramenta para facilitar a participação dos jovens no território e junto dos decisores políticos, com foco no consumidor final que pode comunicar com o decisor e participar na definição de políticas públicas em tempo real. Através da ferramenta, já foram criadas mais de 1200 propostas maioritariamente por jovens, o que prova que através da valorização dos jovens e da confiança que lhes é transmitida, dando-lhes voz, a participação cívica aumenta. Há muito talento e muitos jovens com uma consciência cívica dilatada, e que muitas vezes possuem visões mais simplistas e práticas para resolver os problemas existentes.

No entanto, falta-nos muito para conseguirmos incentivar e estimular os jovens para a participação. Temos medo de lhes dar liberdade, mas se os queremos envolvidos temos que tornar estes jovens capazes e confiantes para a história começar a mudar. Também parte do ecossistema de Impacto, o Movimento Transformers promove o talento de jovens, capacitando-os para a participação cívica através do voluntariado nas suas comunidades. Já estão presentes em 20 cidades e concluíram que, com o voluntariado, os jovens aumentaram em 44% o seu sucesso escolar — resultou no seu maior envolvimento, neste caso, com a instituição de ensino, para além da vertente de capacitação e fomento de talento para a actividade cívica. Os jovens têm que ser ouvidos e vistos para maior participação.

O argumento das organizações para a falta de envolvimento é fácil: os jovens “não querem saber”, mas não é verdade. Há, sim, um claro problema geracional de representatividade. E se o sucesso do sistema vai depender do envolvimento entre partidos/decisores e sociedade, vai também depender do comportamento dos partidos e da inteligência e capacidade para absorver a informação, com base na transparência e respondendo aos desafios actuais e direccionadas para os jovens e para o futuro. É preciso trazer modernidade e inovação para os modelos de governação.

A inovação social tem projectos e respostas que deveriam ser olhadas com atenção. O empreendedorismo de impacto social pode promover a participação cívica na medida em que existem soluções, ou potencial criação de outras, que aproximam as gerações e a população dos decisores, e as colocam no centro da solução, aumentando a participação e o sentido de pertença, e afastando o sentimento de incapacidade face às decisões “de cima”. Por outro lado, a inovação social tem um poder educacional muito grande, pelo facto de ser totalmente aberta, podendo qualquer pessoa participar numa solução para os problemas, na criação de um negócio que responda ao desafio social, e por ser um ambiente seguro para falhar. A inovação social é inclusiva, todos podem ser empreendedores, criadores de uma solução que responda aos desafios sociais e participantes activos de uma sociedade mais justa e igual.