Uma Só Saúde: políticas ambientais e saúde pública

Apenas com o desenvolvimento de ações multissectoriais, e aplicando uma abordagem holística, será possível prevenir a doença e promover a saúde da população humana.

O reconhecimento da influência do ambiente na saúde das populações tem aumentado recentemente, apesar de esta relação ter sido estabelecida há muito. Na verdade, é impossível assegurar a saúde de uma população se o ambiente onde essa população reside, trabalha ou ocupa os seus momentos de lazer, não for saudável.

Existem, no entanto, diferentes questões ambientais, que afetam de forma distinta diferentes partes do globo, impedindo o reconhecimento global da importância das políticas ambientais como uma ferramenta fundamental na prevenção da doença e promoção da saúde.

No sentido de ultrapassar esta limitação, a abordagem de Uma Só Saúde (One Health) promove, através de uma visão integrada, a implementação de programas, políticas, legislação e investigação em várias dimensões (ambiente, saúde humana e saúde animal), de modo a alcançar maiores ganhos em saúde pública. Efetivamente, apenas com o desenvolvimento de ações multissectoriais, e aplicando uma abordagem holística, será possível prevenir a doença e promover a saúde da população humana.

Um exemplo que pode ser utilizado para melhor demonstrar a necessidade de uma abordagem integrada é a pandemia covid-19, muito presente ainda no nosso quotidiano, e que serviu para vivenciar como é frágil a nossa saúde e bem-estar num Mundo globalizado. Na verdade, vivemos na Era das pandemias; vários relatórios referem a previsão de pandemias mais frequentes se a nossa relação com a Natureza não se alterar, porque as causas que levam à perda da biodiversidade e à alteração dos ecossistemas são as que levam também ao aumento do risco de pandemias.

E que causas são essas? Alguns exemplos que importa mencionar são a exploração insustentável do ambiente através de mudanças da utilização do solo, intensificação e expansão da agricultura, comércio e consumo de espécies selvagens, entre outras situações que alteram as interações naturais entre a vida selvagem e os agentes patogénicos, contribuindo assim para um aumento do contacto da vida selvagem com as pessoas e animais de companhia e produção, potenciando o risco de transmissão de zoonoses.

Também as alterações climáticas têm um papel importante no aumento do risco pandémico porque promovem o movimento de pessoas, da vida selvagem, e de vetores de doença (como por exemplo os mosquitos) e a consequente dispersão de agentes patogénicos que levam a um novo e mais intenso contacto entre diferentes espécies, alterando também a dinâmica natural entre hospedeiros e agentes patogénicos.

Portanto, claramente, apenas com uma política internacional forte para a conservação da biodiversidade, com objetivos ambiciosos assentes num compromisso político, conseguimos prevenir futuras pandemias. Assim, a nível governamental é necessário aumentar o investimento em abordagens multissetoriais e multidisciplinares, fortalecer a integração dos aspetos ambientais nas organizações relevantes em matéria de saúde internacional como a Organização Mundial da Saúde, a Organização Mundial de Saúde Animal e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.

No que concerne ao contributo científico, é necessário promover a investigação científica dedicada ao complexo das dimensões sociais, económicas e ecológicas de doenças emergentes, incluindo zoonoses, a avaliação dos riscos associados, reunindo evidência robusta e facultando aos decisores políticos o conhecimento para definir e implementar intervenções na interface do ambiente, saúde animal e saúde humana.

Um ambiente saudável é fundamental para uma população saudável!

Susana Viegas, Professora da ENSP-NOVA e investigadora do Comprehensive Health Research Center
Ricardo Assunção, Investigador no Centre for Environmental and Marine Studies, Universidade de Aveiro
Carla Viegas, Professora da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa, Instituto Politécnico de Lisboa
Carla Martins, Investigadora ENSP-NOVA e Comprehensive Health Research Center

Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico