O cheiro a consoantes mudas assassinadas pela manhã

Nada tenho contra a escritora Isabela Figueiredo, a quem desejo êxito literário no exercício do seu labor criativo. Contudo, nem os maiores arautos do Acordo Ortográfico de 1990 terão ficado indiferentes à ligeireza e leviandade com que as suas palavras foram proferidas.

É tentador assimilar o destino de um povo à convenção hegemónica de uma língua, na afirmação de si mesmo perante a saudade do Império e o sintoma de uma existência e identidade precárias, na constante urgência de reavivar o centro mítico abatido em que aquele vive. Queremos sempre mais do que somos e travestimo-nos, invariavelmente, daquilo que não somos. Ao contrário do que se possa crer, a supressão de grafemas e a purga de acentos que o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) providenciou não se traduz na promessa de um gesto de humildade e de solidariedade para com os países de Língua Portuguesa, mas a mais recente, esfacelada, incompreensível e incoerente tentativa de assegurar a Portugal a sua sobrevivência cultural e, anacronicamente, a expressão épica e controladora que o seu instinto anima.

Abdicámos da natureza ontológica da grafia – e nisso tivemos, com efeito de ceder, “convidando” outras nações a cedências – a fim de manter a intenção de prolongar o estranhíssimo fenómeno do destino imperial e, finalmente, nos convertermos nos sonhadores de nós mesmos e nos idólatras do poder e das honrarias de um ideal fáustico inexistente, análogo ao proposto por Pessoa na Mensagem. O nosso provincianismo é de facto megalómano.

Alfredo Margarido (A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses, 2000) – sem esquecer o luso-angolano Leonel Cosme em Os Portugueses. Portugal a Descoberto, 2007) – não foi o primeiro ensaísta a alertar para o terreno movediço da lusofonia, essa pretensão encapotada de neocolonizar territórios onde se fala português, por intermédio da própria língua, nas suas dimensões gráfica, semântica e ideológica, em que “os missionários da lusofonia agem como se não tivéssemos atrás de nós uma longa história de relações polémicas com aqueles que escolheram falar português”. Muito antes, em 1997, já Eduardo Lourenço publicara Imagem e Miragem da Lusofonia, mas também Portugal Como Destino e Mitologia da Saudade, dando-nos conta deste novo mito, sustentado no “sentimento profundo da fragilidade nacional” e na perda identitária do esplendor imperial, enquanto sistema de compensação gerado desde a sacralização das origens, ao sebastianismo de Os Lusíadas (referência icónica da cultura portuguesa, como Lourenço se lhe referiu), à lógica profética de António Vieira, e à utopia Pessoana do Quinto Império, lida, o mais das vezes, sem escrúpulo de vaidades. Lembremos como nem Camões se deixou deslumbrar por acessos narcísicos e megalómanos de larga escala, convencido dos embustes dos egoísmos nacionais e imbuído do discernimento e pudor de não faltarem atrevimentos “Nesta pequena casa Lusitana”.

Em parte, o recente discurso poliédrico do Presidente da República tocou escombros, ruínas, demónios, fantasmas e feridas que não foram de todo resolvidas. Alfredo Margarido dizia noutro lugar que a “descolonização” não simplificou sequer a validade das literaturas africanas e que “a própria existência da ‘descolonização’ prova que ainda não conseguimos libertar-nos da ganga colonialista, já que os portugueses surgiram como únicos actores do processo político: colonizadores graças às malhas que o Império tece, mas também descolonizadores, quando se trata de destecer as mesmas malhas”.

Em Angola, Luandino Vieira (oportunamente apelidado de logoteta por Salvato Trigo) terá sido um dos primeiros escritores a usar a grafia como estratégia de sabotagem ideológica de carácter nacionalista, apropriando-se da língua do colonizador, codificada e amplamente estabilizada (por meio da normatividade gramatical) no plano da comunicação social, para a sua desconstrução, sustentada na integração da oratura africana (ritmo oral, léxico e sintaxe específicas) no genotexto de origem europeia, e visível, entretanto, nas marcas de interferência lexical e sintáctica (em especial do Quimbundo) ao nível do fenotexto. João-Maria Vilanova, como demonstrou Pires Laranjeira, completou essa estratégia de ruptura linguística. Em Moçambique, Mia Couto acrescentou esse suplemento à língua escrita, a despeito do papel antecipador em matéria ortográfica e lexical de José Craveirinha, pioneiro nesse campo.

Em suma, todos estes escritores e muitos outros confrontaram a língua do colonizador com modos gramaticais do Quimbundo, do Xi-Ronga ou de outras línguas, num propósito identitário perfeitamente legítimo e compreensível. A fórmula foi a de forjar uma norma linguística específica, capaz de consubstanciar desígnios e destinos nacionais distintos, numa lógica diametralmente oposta à de um acordo ortográfico.

Por cá, assistimos, como se tem dado conta, à queda da língua e, obcecados pela modernidade, testemunhamos, na placidez do bom pastor, a gratuitidade dos estrangeirismos e modismos sumptuosos e escusados: a task force, o Plano de Recuperação e Resiliência, e todos os empoderamentos de que os novos impostores da linguagem se servem para comerem o prato do dia. O resultado está à vista e o triunfalismo bacoco serve-se de grandes parangonas, de números de cátedras, de actividades e de um pomposo Dia Mundial da Língua Portuguesa, contra o qual nada tenho, senão a edificação da sua mitomania com resquícios de luso-tropicalismo.

No mais recente programa É Ou Não É? da RTP1, assistimos ao melhor e ao pior de nós – e ainda bem que ali tivemos António Zambujo, Nuno Pacheco, Arthur Dapieve e Stewart Sukuma em franca sintonia, objectividade e solidariedade. Ouvimos, entre outros disparates, uma escritora portuguesa (nascida em Moçambique), Isabela Figueiredo, afirmar o seguinte: “Eu sempre senti, ao longo da minha vida de estudante, a necessidade de eliminar as consoantes mudas e o acordo ortográfico veio satisfazer este meu grande desejo de as assassinar, de as fazer desaparecer.” Os anseios graficidas foram, realmente, atingidos com o AO90: sinais diacríticos, acentos, hífenes foram sujeitos a um verdadeiro extermínio.

Nada tenho contra esta escritora, a quem desejo êxito literário no exercício do seu labor criativo, de que a língua e a literatura, imagino, deverão beneficiar. Contudo, nem os maiores arautos do AO90 terão ficado indiferentes à ligeireza e leviandade com que as suas palavras foram proferidas (terão corado de vergonha?), num tom que, mesmo repassado de candura, pareceu ajustado ao discurso dos criminosos de guerra. Isabela parece escudar-se no zelo (quantas vezes superior ao dos escritores) dos correctores – aproveito para saudar correctores e tradutores, responsáveis pelo apuramento da sintaxe, facto que, sem a sua intervenção, nivelaria por baixo a literatura e condicionaria tantos talentos literários.

Independentemente da justeza do AO90 – se é possível colocar as coisas nesse plano –, não pareceram os seus defensores compreender a contradição a que se expuseram, porquanto a melhor forma de afirmação identitária da vertente europeia da língua seria não lhe ter sequer tocado, mantendo nela a diferença com que generosamente se poderia, em concomitância, aceitar as dissemelhanças linguísticas de todos os territórios em que a Língua Portuguesa vigora. A simplificação linguística, como quase todas (se exceptuarmos a poesia, domínio em que ela é indispensável), como necessidade táctica, foi um salto apressado em direcção à nossa decadência, o salto de quem não compreende a profunda marca semântica que um só grafema – tal como algumas vírgulas – encerra.

E assim os defensores do AO90 venceram, é certo, até agora. Mas a sua vitória não deixa de ser pírrica, porque suspeita de inventar uma estratégia apressada, inconsistente quanto ao princípio da unidade, impulsionada pelo instinto imperial e manifestamente privada de um sentido de identidade nacional. E acredito mesmo que essas pessoas tenham já experimentado uma nota de arrependimento. Eduardo Lourenço partiu deste ponto: “Só o que a cada momento da vida de um povo aparece como paradoxalmente inalterável ou subsistente através da sucessão dos tempos confere sentido ao conceito de identidade.”

Conseguem cheirá-las, amigos? São consoantes mudas eliminadas, amigos! Nada na língua e na cultura portuguesa cheira assim. Adoro o cheiro a consoantes mudas assassinadas pela manhã. É um cheiro a… vitória.