Quem se atreve a subir estes degraus para discutir a cidade do Porto?

Ecoante, instalação móvel da arquitecta Mariana Almeida, fez esta terça-feira um percurso do Jardim de Arca D’Água à Praça Carlos Alberto para pôr os portuenses a pensar sobre a existência (ou falta) de espaços de participação cidadã na cidade.

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Mariana Almeida, autora da instalação, e Orlando Gilberto-Castro, coordenador do Living City Porto Manuel Roberto

O olhar distante e indiferente da figura de Almeida Garrett, defronte do edifício da Câmara Municipal do Porto, é um prelúdio altamente simbólico das reacções desencadeadas cidade fora pela Ecoante, instalação móvel criada pela arquitecta Mariana Almeida no âmbito do projecto Living City Porto, que esta terça-feira fez um percurso entre o Jardim de Arca D’Água e a Praça Carlos Alberto para convidar os portuenses a questionar a ausência de plataformas de participação cidadã na cidade e o nível de envolvimento que têm na construção de dinâmicas e decisões colectivas.

Estacionada em frente à Câmara do Porto, a estrutura amarela, assente sobre rodas, tem vários degraus que dão acesso a uma espécie de púlpito, não muito diferente daqueles em que se fazem boa parte dos discursos ou debates políticos. A larga maioria das pessoas passa pelo objecto, alheia e desinteressada, mas mesmo os mais curiosos resistem a aproximar-se. Talvez porque, como Mariana Almeida, sintam que, apesar de aqui passarem, viverem e/ou trabalharem, não têm lugar entre as vozes que debatem o dia-a-dia da cidade. “A minha sensação é de que ando por aqui, mas de forma nenhuma consigo ter um contributo ou ter alguma coisa a dizer sobre a cidade”, explica ao PÚBLICO.

Burocracia inibe participação?

O fosso existente entre os cidadãos e as instituições esteve na base da sua candidatura à open call do Living City Porto, projecto do arquitecto Orlando Gilberto-Castro, apoiado pelo programa municipal Criatório, que segundo o próprio pretendeu reunir “inquietações de gente variada, artista ou não, sobre a cidade” para depois materializá-las de forma “comunicável” e propiciar a interacção dos participantes com a cidade. Com esta peça, o primeiro trabalho do projecto a ser mostrado em público, a arquitecta quis “visibilizar essa falta de espaços informais de discussão cidadã [no Porto]”. “Quem tiver a coragem de subir os degraus depara-se com a frase ‘Qual é a voz da tua cidade?’, que é uma provocação sobre o que a cidade nos diz e o que queremos que ela nos diga.”

Embora instrumentais para o exercício da cidadania, os movimentos, colectivos e associações de moradores muitas vezes têm “dificuldade em serem ouvidos”, observa. Por outro lado, importa perceber se “os mecanismos de participação existentes funcionam ou se são muito burocráticos”. Mariana não tem dúvidas de que a logística necessária à inscrição para participação na discussão numa reunião camarária, por exemplo, está ultrapassada. “Com as tecnologias e os sistemas que temos hoje, já não me parece deste tempo.” Além disso, a desacreditação da participação política leva a que muitas pessoas se retraiam da participação nesses processos. “As pessoas sentem que não importa o que dizem”, problematiza.

Também determinante para perceber o nível de envolvência dos cidadãos na vida pública é o “pensamento individualizado” que rege a sociedade contemporânea, argumenta Mariana Almeida. O papel predominante das redes sociais como espaço de eleição para discussão (ou atropelo) de ideias realça estas características. “O problema é que ali vou falar do problema do meu quintal, não do do vizinho e do colectivo.”

"Dar a voz ao povo"

A presença da peça no espaço público adquire especial relevância, precisamente, por se situar fora das bolhas existentes nas redes sociais ou mesmo nas associações e colectividades da cidade. Segundo a autora da instalação, esses circuitos têm adjacente um “risco de estarmos a falar com pessoas que pensam como nós”. “É aqui que nos cruzamos com as outras pessoas e nos podemos construir através desse contraste.”

Recentemente, a Ecoante esteve presente na exposição do movimento Por um Jardim Público para o centro da Boavista, cujo objectivo era mostrar as possibilidades de ocupação dos terrenos da antiga estação ferroviária da Boavista em alternativa ao El Corte Inglés para ali planeado, e serviu para “ver além do muro”. “Muita gente se esquece da dimensão do terreno que existe ali”, nota Orlando Gilberto-Castro. O movimento ilustra, aliás, a falta de um espaço de escuta para os cidadãos. “Pedimos uma reunião à Câmara, mas ainda não foi possível fazê-la”, nota o arquitecto, integrante do movimento.

Apesar de ser encarado com estranheza por muitos, o púlpito móvel é mais fácil de compreender do que parece. Ainda mal tinha arrancado e um senhor parou-o para saber do que se tratava. “Participação”, resumiu Mariana. A palavra tinha a resposta que procurava e que recebeu com agrado. “É dar a voz ao povo, acho muito bem.”