Verona, bella Verona

Shakespeare deu a Verona o romance, tão trágico quanto eterno: “Romeu e Julieta” são inseparáveis da cidade, também neste passeio da leitora Maria Julieta Henriques.

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O balcão Maria Julieta Henriques

Gosto de viajar. Gosto de sítios novos, de mudar de ares, aprender… evadir-me, enfim. Fiz, pois, as malas e rumei a Verona, na Itália. Verona e “Romeu e Julieta” são inseparáveis desde que, no séc. XVI, William Shakespeare escreveu a história de amor mais contrariada, mais trágica e mais célebre da literatura mundial. Mas, para lá da literatura, Verona oferece inúmeras outras razões para ser visitada. Não se estranha que esteja, desde 2000, classificada pela Unesco como Património Mundial. 

Cheguei à cidade numa mansa manhã desenhada a cores outonais. Verona, cidade fundada pelos Romanos no séc. I a.C., guarda um centro histórico admirável. Bem delimitado, bem preservado, respeitado, quase inviolado. Nele se destacam as pontes Pietra, a mais antiga (séc.I a.C.) e Castel Vecchio (meados do séc. XVI) sob as quais deslizam, pacíficas, as águas do rio Adige. Bem no coração desta Verona medieval encontram-se três belíssimas praças.

Piazza della Erbe marca o epicentro da citá antica. Todo um espaço assaz movimentado, com bons restaurantes, cafés e esplanadas. Saindo desta praça pelo Arco della Costa, entra-se na Piazza dei Signori. Se de dimensão muito menor que a anterior, esta pode bem ser a “sala de estar” de Verona, com todo o seu recorte elegante e aristocrático, ao mais aprimorado estilo renascentista. Fundem-se, por ali, o romantismo dos velhos edifícios com a modernidade do traço contemporâneo.

A meio da praça, bem destacada, a estátua de Dante Alighieri, o maior poeta de língua italiana, celebérrimo autor da Divina Comédia. A Loggia del Consigo é o seu mais belo edifício decorado com frescos belíssimos e coroado por estátuas de personagens veronesas  do período romano. Também por ali muitos turistas observando e fotografando a bela praça; outros ainda, saboreando um gelato nas várias esplanadas e cafés.

A mansão situada na Via Capella é, seguramente, a mais concorrida atracção de Verona: a casa de Julieta (Casa di Giulieta).  A trágica história de Romeu e Julieta, contada por W. Shakespeare, relata a história de um amor proibido entre dois jovens oriundos de famílias desavindas: os Montecchio e os Capuletto. Uma das mais belas e trágicas histórias de amor de todos os tempos. No pátio da casa, a delicada donzela, está reproduzida em bronze, numa estátua de tamanho natural.

Diz a tradição que passar uma mão pelo seio direito de Julieta dará sorte para achar um grande amor! Jovens e menos jovens, todos lhe acariciam o seio! Para dar mais veracidade à história, convém lembrar que o célebre balcão onde a jovem escutava, inebriada, as juras de amor do seu Romeu, foi acrescentado à casa em 1936, nunca tendo havido na obra de Shakespeare qualquer referência ao dito balcão.  Mas, quem conta um conto… As paredes que dão acesso ao pátio estão literalmente “forradas” por bilhetes e cartas de amor, escritas nas mais diversas línguas, ali deixadas por turistas de todas as nacionalidades.

Mas faltava ainda conhecer a maior das três praças de Verona: a Piazza Bra. Esta é das mais conhecidas praças da cidade, não só pela extraordinária área, mas também pela sua impressionante Arena Romana, o seu maior e único atractivo. Onde outrora se assistia a ferozes lutas de gladiadores, acolhem-se hoje graças à sua magnífica acústica, belíssimos espectáculos de ópera e outros eventos; com capacidade para 25 mil pessoas é, sem dúvida, uma maravilha da Antiguidade. 

Uma brisa suave, anunciando as primeiras frescuras outonais fez-se sentir e, quando já declinava o dia, voltei à Piazza di Dante onde a atmosfera era, então, bem mais tranquila. Admirei alguns pormenores que pela manhã me haviam escapado. Lá estava Dante, observando-me também, do alto do seu pedestal.

Caíra já a noite quando deixei a Piazza de Dante. Está lua cheia. Do cimo da Torre dei Lamberti, uma coruja piou.

Maria Julieta Henriques, Outono de 2019