O Planeta à beira do abismo

A questão é mesmo saber se ainda vamos a tempo e se o apelo lancinante de António Guterres será ou não suficiente para reverter aquilo a que chama “uma ameaça existencial”, num mundo “à beira do abismo”.

Todas as nações e indivíduos têm uma responsabilidade na preservação do planeta, devendo fazer infinitamente mais do que tem sido feito até agora para impedir que o aquecimento global tenha consequências ainda mais destrutivas nos ecossistemas naturais, afetando vastas camadas de populações e as suas economias. Os exemplos cada vez mais frequentes e intensos de fenómenos meteorológicos como grandes vagas de calor, secas prolongadas, chuvas diluvianas, tempestades ou deslizamentos de terras são um sinal de alarme muito sério.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, não poupou no dramatismo ao afirmar que o mundo está à beira do abismo, na recente cimeira para assinalar o Dia da Terra. Se calhar é mesmo necessário uma dose reforçada de dramatismo para alertar a consciência do mundo, demasiado agarrada ao hiperconsumismo.

A União Europeia, que tem sido farol no combate às alterações climáticas, conseguiu, por impulso da Presidência Portuguesa, alcançar um importante compromisso para atingir a neutralidade carbónica em 2050, meta, aliás que o Governo de António Costa já definira como um ambicioso objetivo, tendo sido o primeiro Estado-membro a anunciá-la, na linha do que defendem as Nações Unidas.

O objetivo de alcançar a neutralidade carbónica, que é um dos compromissos centrais do Acordo de Paris, significa que os ecossistemas naturais, como os solos, os mares e as florestas, teriam capacidade para absorver mais gases com efeito de estufa do que aqueles que seriam enviados pela atividade humana para a atmosfera, o que apenas será possível perante uma mudança radical na produção e hábitos de consumo.

Mas este é um problema de todos os países e não apenas de alguns, não bastando que a União Europeia tenha definido como uma das suas grandes prioridades o crescimento verde, que os Estados Unidos e a China convirjam na necessidade de combater as alterações climáticas e que haja um grande esforço para promover um crescimento verde em África, o continente onde o aumento populacional mais vai acelerar nas próximas décadas.

Por isso, a batalha está longe de estar ganha. Todos os grandes poluidores terão de esforçar-se e investir muito mais para atingir esses objetivos, e os países em desenvolvimento, animados pela esperança de melhores condições de vida, terão de se adaptar às necessidades de proteção do ambiente. É claro que os grandes poluidores têm uma responsabilidade especial e muito maior, a começar pela China, a que se seguem depois os Estados Unidos, a Rússia, Índia, Japão, Alemanha, Canadá, Reino Unido, Coreia do Sul e Irão, apenas para referir os dez primeiros. Mas o resto do mundo não pode ficar de fora. E não é bom sinal que, na Ásia, a atual retoma económica esteja muito assente em energias fósseis.

A questão é mesmo saber se ainda vamos a tempo e se o apelo lancinante de António Guterres será ou não suficiente para reverter aquilo a que chama “uma ameaça existencial”, num mundo “à beira do abismo” por não se fazer o que é necessário, isto é, para evitar passar a marca de um aumento em 1,5 graus da temperatura em relação à era pré-industrial, o que teria consequências dramáticas para o planeta e para a humanidade, sendo que já não falta muito para tocar essa linha vermelha.

Como disse a jovem ativista Greta Thurnberg num vídeo para assinalar o Dia da Terra, “podemos enganar outros e até nós próprios, mas não enganamos a natureza”.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico