Cultural, gastronómico e inclusivo: os pequenos negócios de Lisboa uniram-se no colectivo Coral

Três negócios de Lisboa - o Valsa, o Café Mortara e a Artesanalis - uniram-se para criar um novo colectivo, o Coral, e inaugurar um espaço cultural e gastronómico inclusivo. Para apoiar a construção da futura sede, lançaram uma campanha de crowdfunding, a decorrer até 26 de Abril.

Foto
Da esquerda para a direita, Pedro Mendes, Letícia Mendes, Nika, Martha Varella, Vítor Mortara, Thiago Rocha e Marina Ginde. Alex Rajan

O novo colectivo Coral une três pequenos negócios lisboetas: o Valsa, o Café Mortara, e a Artesanalis, que manterá a sua garrafeira de cerveja artesanal no bairro de Alvalade. Prometem unir-se para inaugurar um espaço cultural e gastronómico inclusivo e acessível, com sede no cruzamento dos bairros de Arroios, Penha de França e Graça, em Lisboa. A casa do Coral deverá abrir portas, ainda sem data definida, no final de Maio de 2021.

“O ano de 2020 foi uma loucura. Todos os pequenos negócios tiveram as mesmas frustrações. Não faria sentido continuar se não uníssemos forças e crescêssemos juntos”, conta Marina Ginde, uma das criadoras do Valsa, um “bar de causas onde cabem a dança e todas as artes", no alto da Penha de França. Além de parceiros de negócios, o colectivo é feito por amigos, todos imigrantes brasileiros.

O Valsa também viajou, na verdade, do Brasil para Portugal. Há mais de uma década, já existia enquanto colectivo artístico e cultural, de que faziam parte Marina e Nika, amigas e músicas na mesma banda feminina. Marina vivia no litoral de São Paulo, em Santos, no mesmo prédio de Vítor Mortara e Letícia Mendes, o casal que, anos mais tarde, faria as malas para abrir, em Lisboa, o Café Mortara. Só em Portugal, já parceiros e amigos, descobriram que partilhavam a mesma morada.

Do novo colectivo Coral também fazem parte Thiago, que se juntou ao Valsa com as suas pizzas de fermentação lenta, e Martha e Pedro, apaixonados por cerveja artesanal. Todos partilham o mesmo princípio: garantir refeições de qualidade a preços acessíveis, “democratizar produtos que as pessoas poderiam ver como inalcançáveis”, acrescenta Marina.

O espaço que acolherá o colectivo terá uma sala dedicada à gastronomia, num ambiente informal, para partilhar as pizzas de Thiago e a massa fresca do Café Mortara, acompanhadas pela cerveja do Artesanalis. A segunda sala será dedicada à cultura, preenchida por concertos, saraus ou DJ sets, com uma programação cultural semelhante à que o Valsa mantinha.

A casa de sonho do Coral, contudo, ainda não existe. Existe o “osso”, a estrutura do edifício. A partir daí, construirão tudo, até o chão. Como ilustração simbólica, “poética”, nas palavras de Marina, a artista Jaqueline Arashida desenhou um poster para celebrar a mudança e um novo início para os três negócios. Lê-se, no cartaz: “Debaixo do barro do chão”, verso de uma música de Gilberto Gil.

O Coral ficará num edifício novo, que, para Marina, formada em arquitectura, “pode bem simbolizar a gentrificação do bairro da Graça”. “É isso que queremos inverter. É por isso que queremos mostrar que o espaço é aberto a todos.”

Este lugar de criação, um “laboratório para artistas independentes”, onde todos são bem-vindos, poderá ser, afirma Marina, “um espaço político”, de causas. “Tudo é político. Nós temos o compromisso de defender a causa feminista, anti-racista, e de acolher as pessoas LGBTQIA+”.

Para que familiares, amigos e apoiantes, em qualquer parte do mundo, pudessem contribuir para a construção do Coral, o colectivo lançou uma campanha de crowdfunding. Já angariaram mais de 5000 euros, mas, caso não alcancem o objectivo final, ainda a 1100 euros de distância, não recebem qualquer quantia. A campanha terminará a 26 de Abril.