Quem adere ao terrorismo em Moçambique e como…

O recrutamento nas madrassas e a constituição de mesquitas próprias, wahabitas, é comum e aumentou com as constantes ameaças às escolas estatais reportadas desde 2015.

A tentação de culpar o Governo Moçambicano é grande, pois ignorou e desvalorizou o problema, durante anos. Aliás, apenas esta semana o presidente Filipe Nyusi falou da guerra em Cabo Delgado. Contudo, as palavras têm força e enquadramento jurídico, pelo que embora seja positivo finalmente encarar este problema como mais do que uma revolta, considerar que se trata de uma guerra legitima as ações do movimento ao serviço do Daesh, que se vê assim equiparado a um ator estadual. A menos que declare guerra ao terror, à semelhança dos americanos, estará a equiparar os detidos a prisioneiros de guerra e não criminosos, dificultando esforços de desistência das atividades violentas e desvinculação do movimento após a sua captura.

Estas não são pessoas mentalmente débeis ou doentes que aderem ao extremismo violento, pois não se verifica uma maior incidência de psicopatologias nos extremistas violentos. Os fatores que alimentam as dinâmicas de recrutamento para os movimentos são: socioeconómicos, religiosos e psicológicos. Isto verifica-se também em Moçambique, conforme os relatos da população de Cabo Delgado entre 2017 e 2021 demonstram.

No início, muito antes de 2017 como vimos, os extremistas violentos eram jovens de Mocímboa da Praia, que haviam estudado no estrangeiro, com bolsas de estudos financiadas por homens de negócios locais e estrangeiros (nomeadamente madeireiros e garimpeiros). O contacto com círculos religiosos rapidamente conduziu à progressão no movimento e à introdução em células militares, provenientes da Tanzânia, Somália e região dos Grandes Lagos. Alguns destes elementos tinham ligações indiretas com líderes espirituais da Arábia Saudita, Líbia, Sudão e Argélia, através de vídeos de propaganda, que o “Grande Comandante”, H. M. (tanzaniano), distribuía ou dos elementos que tinham estudado no estrangeiro, como A. I. e O.B.. De referir que uma parte desses jovens que estudavam e contactavam com estes círculos religiosos está concentrada na zona Norte e outra na cidade de Maputo.

O recrutamento nas madrassas e a constituição de mesquitas próprias, wahabitas, é comum e aumentou com as constantes ameaças às escolas estatais reportadas desde 2015, que terão conduzido à desistência em massa dos alunos das escolas estatais, e que o movimento queima em cada ataque. Também o sentimento de identidade de grupo ameaçada e insatisfação com as condições socioeconómicas, aliada à esperança de melhores condições de vida, a vontade de construir uma capital política do Al-Shabaab em Cabo Delgado (noção rejeitada por alguns, mas que o comportamento dos últimos ataques parece viabilizar, com o transporte de escravos, muito semelhante ao das mulheres yazidi e de  “recrutas” que são retirados às suas famílias e que rodam por diferentes campos de treino de 2 em 2 anos, quando esse é o tempo para alguém se vincular a outro, desenraizando-os – fator de risco de radicalização e de maior adesão à ideologia religiosa).

Também o casamento é uma forma de recrutamento e implantação, havendo a necessidade de povoar um novo Estado Islâmico. Inicialmente, através de casamentos que permitissem adquirir estatuto e respeito na comunidade de Mocímboa da Praia. Atualmente, para a consolidação da ocupação do território, doutrinação desde o nascimento de futuros filhos de extremistas e recompensa dos extremistas.

Há relatos de infiltrados nos grupos de deslocados internos que chegaram a Pemba, havendo a informação da pretensão do movimento conquistar essa cidade nos próximos seis meses. Outros populares reportam, ainda, infiltrados na população das cidades que têm vindo a ser atacadas. Isto deve-se, em parte, à implantação num primeiro momento das células religiosas e só posteriormente de células militarizadas, ao recurso às redes sociais e às redes informais de amigos. Existem já campanhas de contra-narrativa em curso em Moçambique, com rádio-novelas e posts nas redes sociais a promoverem a moderação do discurso islâmico, com a explicação de algumas passagens do Al-Corão que os extremistas têm vindo a deturpar para justificarem a adesão à violência.

Assim sendo, estes são indivíduos, na sua maioria, normativos que se tornam gradualmente capazes de atos violentos, tratando-se de uma trajetória moral numa combinação de ideologia e uma dinâmica de pequeno grupo intensa. A identidade estrutura-se em resposta à questão: “que tipo de pessoa sou eu, na adversidade?”. Verifica-se a existência de um evento de vida catalisador que ativa o seu sistema de valores, potenciando a identificação com os ideais extremistas e a adesão a uma nova identidade de grupo.

Por cada extremista violento envolvido em ataques, há muitos mais que ocupam lugares mais baixos na escada de radicalização (pelos quatro pilotos do ataque de 11 de setembro, identificou-se uma rede de mais de 40 pessoas), que se dedicam a atividades de recrutamento, logística, financiamento, etc.

A abertura de um inquérito às atividades das FDS Moçambicanas e o reforço da segurança nas províncias de Nampula e Niassa é fundamental para combater as causas da adesão ao extremismo violento. Porém, ele já lá está e é preciso identificar os elementos que apresentam fatores de risco de radicalização, para além daqueles que têm vindo a recrutar para o movimento e alimentado as células militarizadas.