No luto, a luta de um Brasil cansado

No seguimento de um luto que ainda não finda, o Brasil cansado segue na luta. Na fé de sempre, na fé de Chico, que amanhã há-de ser outro dia.

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Profissionais de saúde deixam flores em cima de um caixão para representar colegas mortos, num protesto contra o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, e a sua gestão da crise do coronavírus (COVID-19) Ueslei Marcelino/REUTERS

Fernando. Lori. Antônia. Marcos.

Eu começo o texto com as pessoas que perdi para a covid-19 no Brasil. Pessoas que me ensinaram algo, que me deram abraços, distribuíram sorrisos. Pessoas com famílias, empregos e sonhos. Pessoas. E não números desumanizados. Pessoas, e não só nomes que podes ler no início deste texto. Pessoas cheias de vida que, de uma hora para a outra, nos deixaram. O Brasil perdeu-as e a outras 300 mil pessoas. Trezentas mil pessoas deixam 300 mil famílias, milhões de amigos, milhares de amores e uma infinitude de sonhos. Eu inicio este texto em luto por todos aqueles que se foram. 

E no meio desse luto, vejo a luta de um Brasil cansado. 

Com três mil mortes por dia, hospitais colapsados, sem auxílio à habitação, vacinações atrasadas, desemprego em massa e sem nenhuma perspectiva de quando tudo isto vai melhorar, o Brasil perde o fôlego, não só pela covid-19, mas pela fadiga colectiva que o país enfrenta. O caos deliberado já persiste há um ano, sendo agora, Março de 2021, o pior momento pandémico. A quantidade absurda e alarmante de vidas perdidas provém de um plano de morte instaurado no Brasil. (Des)governado por um presidente “eleito” pelo jornal Washington Post como o pior líder mundial no combate à pandemia, o país está refém de um presidente irresponsável.

O negacionismo do Bolsonaro encaminha o país até para um possível colapso funerário. “Não sou coveiro”, respondeu, quando questionado sobre as mortes provocadas pelo novo coronavírus, no ano passado. Hoje, quase não há covas para tantos funerais. Pouca acção, ou quiçá nenhuma, contra a pandemia foi empreendida, pelo contrário. Bolsonaro atrapalhou o que estava sendo feito. Num ano de pandemia, no Brasil teve quatro ministros de Saúde, o que provocou um enorme atraso na gestão do combate. Como se, além de atrasar, isto também representasse que o problema fosse o ministro. Nunca foi. Entre os médicos e o general que assumiram o ministério e aquele que os colocou e os retirou dos postos, quem tem que sair é o Presidente. 

É por essa certeza que se ergueram panelas e os gritos de “genocida” ecoaram de dentro das casas brasileiras durante o pronunciamento de Bolsonaro em cadeia nacional, na última terça-feira, sobre a primazia de salvar vidas. “Genocida!”, gritavam, de forma assertiva e legitimada, para um Presidente que chama a covid-19 de “gripezinha”, faz aglomerações sem o uso da máscara (não só não a usava, como ainda alegou “efeitos colaterais” do uso nas crianças), desincentiva a vacinação (ao ponto de dizer que quem tomar poderia “virar um jacaré”), é contra lockdowns, defende o uso de medicamentos comprovadamente ineficazes no tratamento da covid-19 e, ainda, rejeitou 70 milhões de doses da vacina Pfizer e recusou três ofertas do Instituto Butantan para comprar a vacina CoronaVac. O Brasil poderia estar muito mais à frente no combate à pandemia e na vacinação. É por isso que assim lhe chamam — quem permite e incita a morte de um povo é genocida, nada menos que isso. 

Das janelas de um Brasil cansado, o panelaço em diversas capitais do país é a resposta pelas declarações dadas com um ano de atraso, trezentas mil mortes nas mãos, pressões populares nas costas e o retorno elegível de Lula o assombrando à noite. Bolsonaro não teme o coronavírus e não chora pelas mortes, Bolsonaro teme o regresso triunfante de Lula. Teme a actual pressão do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira. Teme cair.

E cairá.

De um palacete erguido de ódio onde a ignorância reina, marcado como o pior presidente da história brasileira, cairá. Enquanto isso, no seguimento de um luto que ainda não finda, o Brasil cansado segue na luta. Na fé de sempre, na fé de Chico, que amanhã há-de ser outro dia.