Automotora de dois pisos regressa à linha de Sintra depois de sete anos parada

Composição de dois pisos tinha sido encostada em 2013 e foi agora recuperada por menos de 1 milhão de euros. Nova custaria 8 a 10 milhões de euros.

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Entrou nesta quarta-feira ao serviço nas linhas de Sintra e Azambuja uma UQE (Unidade Quádrupla Eléctrica) de dois pisos que tinha sido retirada do serviço em 2013 e que foi agora totalmente reabilitada nas oficinas da CP do Entroncamento.

Esta composição fazia parte de um lote de oito unidades abandonadas pela empresa entre 2010 e 2013, alegadamente com a intenção de poupar nos custos de manutenção.

Dessas oito automotoras (das quais duas são de dois pisos), já foram recuperadas cinco. A CP espera antes do fim do ano colocar as outras três ao serviço.

A UQE que hoje voltou a transportar passageiros fez a sua última marcha de ensaio na passada terça-feira entre o Entroncamento e Campolide e é agora um comboio praticamente novo depois das intervenções de que foram alvo os bogies (rodados), equipamentos electrónicos, climatização e sistema de frenagem. Uma reparação que a coloca apta para mais 15 a 20 anos de vida.

Os custos rondaram um milhão de euros e poderiam ter sido inferiores se a composição não tivesse sido “canibalizada”, isto é, foram-lhe retiradas peças para serem colocadas noutras automotoras da mesma série. Se fosse comprada nova, este comboio custaria entre 8 a 10 milhões de euros. Em 1999 custou à CP 6,4 milhões de euros.

Fonte oficial da CP disse ao PÚBLICO que esta intervenção teve 80% de incorporação nacional dado que foram empresas portuguesas que fabricaram e forneceram a maioria dos componentes que a automotora necessitava.

A história desta automotora é idêntica às outras quatro unidades (de um só piso) que já foram também recuperadas e postas ao serviço. A sua reabilitação custou entre 600 a 800 mil euros cada uma, garantindo-lhes uma durabilidade de mais 20 anos. Se fossem novas, custariam entre 6 a 8 milhões de euros.

Quando em 2017 o PÚBLICO perguntou à CP por que motivo tinha oito comboios suburbanos encostados, a empresa respondeu que não precisava deles para assegurar o serviço comercial na Grande Lisboa e que, perante a expectativa de gastar cerca de 1 milhão de euros para fazer a revisão da meia vida, optara por retirá-los de serviço. Um acto de gestão consequente com as medidas tomadas anteriormente pelo secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Monteiro, que, no âmbito do PET (Plano Estratégico dos Transportes) e do processo de ajustamento da troika, tinha reduzido a oferta de transportes públicos.

A CP deu, assim, a entender que tinha material a mais, mas não explicou porque parqueou estes oito comboios ao ar livre sem qualquer protecção. Acabariam por servir de fornecedores de peças sobressalentes para a restante frota.

Um ano depois a CP entrava em situação de ruptura de material circulante, numa crise que iria durar dois anos e que teve particular incidência na Grande Lisboa com supressões frequentes.

Fonte próxima da actual administração da empresa diz que foi um erro ter-se encostado aqueles oito comboios pois acabaram por se degradar e tornar mais cara a sua recuperação. Por outro lado, mesmo que houvesse excesso de material circulante, a abordagem correcta é manter todo a frota em circulação, fazendo menos quilómetros por unidade para poupar nos custos de manutenção, do que inutilizar os comboios.