Protestos em Atenas contra a violência policial reflectem divergências no Parlamento

Milhares de pessoas têm saído à rua para protestar contra a violência policial. Governo de Mitsotakis acusa a oposição de estar a aproveitar a revolta da população para ganhar apoio.

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Os protestos na terça-feira contra a violência policial contaram com cerca de 5 mil manifestantes. ORESTIS PANAGIOTOU/EPA

Uma marcha contra a violência policial em Atenas, na terça-feira, acabou com cinco agentes feridos e 16 manifestantes detidos, segundo a polícia. O protesto foi desencadeado por um vídeo publicado no passado domingo que mostra um agente da polícia a agredir um jovem com um bastão.

Inicialmente pacífica, a marcha juntou 5 mil pessoas no distrito de Nea Smyrni, nos subúrbios de Atenas, e culminou num conflito violento que envolveu o arremesso de pedras, bombas incendiárias e outros objectos, assim como actos de vandalismo. A marcha tinha como destino a esquadra local.

Um dos polícias ficou gravemente ferido, enquanto os agentes tentavam controlar a situação que se prolongou até a madrugada desta quarta-feira, recorrendo a gás lacrimogéneo e canhões de água.

O primeiro-ministro, Kyriakos Mitsotakis, fez um comunicado ao país após os motins, dirigindo-se aos “jovens, que estão destinados a criar e a não destruir”, segundo a Reuters. “Ataques de raiva não levam a lado nenhum.”, acrescentou. Também o Syriza, partido de oposição, condenou a violência, criticando àqueles que “mancharam um protesto pacífico.”

Já no domingo tinha havido um outro protesto, mais reduzido, na sequência de um vídeo gravado por transeuntes, onde se vê um jovem a ser agredido por agentes armados com bastões.

Os polícias dizem que estavam numa operação motivada por queixas de violação das restrições impostas no âmbito do combate ao coronavírus. Afirmam também que nesse fim-de-semana tinham sido atacados por “30 pessoas que feriram dois dos nossos agentes”, segundo a AFP.

Diversos membros do Governo sublinharam que no vídeo divulgado não constava a história completa, como reporta o jornal grego Kathimerini.

Um entrevista realizada ao jovem agredido por um outro diário grego, Efsyn, mostra a perspectiva da vítima. Esta diz que apenas respondem aos polícias que queriam impor multas de 300€ às famílias que estavam sentadas na praça, por desobediência às restrições.

“Um agente veio contra mim e atingiu-me”, disse o jovem ao jornal, citado pela AFP. “Ele empurrou-me e depois os outros agentes pontapearam-me por todo o corpo”.

Um dos polícias envolvidos na agressão de domingo já foi suspenso, mas as autoridades continuam a investigar o caso.

Governo critica oposição

Ainda na terça-feira de manhã, o primeiro-ministro acusou o partido da oposição de incitar protestos em plena pandemia e de estar a querer aproveitá-los para obter ganhos políticos.

“O apelo oficial do Syriza para a participação em protestos de cidadãos no meio da pandemia é um acto de grande irresponsabilidade”, afirmou Mitsotakis, citado pelo Kathimerini. “É uma afronta aos nossos profissionais de saúde que lutam dia e noite”, apontou.

Também a porta-voz do Governo, Aristotelia Peloni, se evidenciou neste sentido, responsabilizando a oposição, e os grupos de esquerda que lhe estão associados, pelo agravamento da violência nas disputas com a polícia.

Com a pandemia a acentuar o descontentamento da população, a oposição tem aproveitado para criticar a conduta do Governo no combate ao coronavírus, acusando Mitsotakis de estar em “pânico devido à incompetência do governo”, segundo as palavras de Alexis Tsipras, ex-primeiro-ministro e líder do Syriza.

Tsipras já se tinha manifestado nas redes sociais sobre a agressão policial no domingo, dizendo que “o país tem um Governo que perdeu completamente o controlo da pandemia e tudo o que sabe fazer é bater nas pessoas”.

A temática do abuso da violência policial vai ser debatida na sessão do Parlamento na próxima sexta-feira, numa altura em que se acentuam as divergências e as acusações entre os partidos.

Texto editado por António Saraiva Lima