Comissão da Carteira e sindicato querem saber se alguém anda a “encomendar” notícias da covid-19

A situação é considerada grave e tem contornos de ilegalidade, pelo que a Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas já anunciou que vai averiguar. O sindicato pede a quem teve a experiência que faça uma denúncia.

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Manuel Roberto

Anda alguém a tentar contratar jornalistas, de preferência que já estejam integrados numa redacção, para elaborar notícias, fazer reportagens e entrevistas previamente encomendadas sobre a covid-19. É exigido, por exemplo, que os trabalhos jornalísticos tenham como foco principal temas como a contabilização de números de mortes, número de infectados e níveis de contágio, mortes inexplicadas, o papel dos hospitais privados na covid-19, o número de hospitais envolvidos, ou os custos do combate à pandemia para os privados. A denúncia foi feita pelo jornalista Pedro Tadeu

Num artigo de opinião, no Diário de Notícias, cujo título “O jornalismo sobre a covid-19 é corrupto?”, Pedro Tadeu sugere que pode estar “montado um sistema de contratação, por entidades estranhas ao jornalismo, de jornalistas que estejam a trabalhar em redacções para impingir nos seus jornais, rádios ou televisões matérias que, embora sejam baseadas na realidade (ninguém pediu para mentir), fossem capazes de alterar a linha editorial desses órgãos de informação”.

A Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas (CCPJ) já disse que vai averiguar, tendo considerado a situação grave. “Não recebemos qualquer queixa, mas vamos averiguar junto do autor do artigo de opinião que mais informações pode dar sobre o assunto, porque a situação que é muito grave”, disse ao PÚBLICO a presidente da CCPJ, Leonete Botelho (que também é jornalista no PÚBLICO).

A presidente do Sindicato dos Jornalistas, Sofia Branco, também não recebeu qualquer denúncia, mas classificou de grave a situação, apelando a que quem tenha vivido a experiência a denuncie.

Pedro Tadeu diz, no artigo de opinião, que soube do anúncio através de um amigo seu que se candidatou. O anúncio que apareceu em pelo menos três sites da internet, dizia: “Procuro entrevistador/repórter”. A seguir, vem o texto: “Assegurar a elaboração de reportagens, entrevistas, num tema específico relacionado com saúde, desenvolvendo investigação, reportagens e entrevistas.” São pedidas: carteira profissional de jornalista, licenciatura ou mestrado na área, competências de vídeo, capacidade de análise e comentário e, ainda, “selecção, revisão e preparo definitivo das matérias jornalísticas a serem divulgadas”.

O amigo de Pedro Tadeu chegou a fazer uma entrevista por Zoom e foi aí que percebeu do que se tratava. Percebeu que era importante que trabalhasse numa redacção de um órgão de comunicação social de difusão nacional e tivesse poder para publicar propostas de trabalho suas.

Também percebeu que quando tivesse a reportagem específica combinada com o recrutador, deveria propor esse trabalho na sua redacção como sendo uma ideia sua. Caso conseguisse publicar, nos moldes combinados, seria remunerado por isso.

Ao PÚBLICO, Pedro Tadeu esclareceu que não revelou a fonte da informação porque o jornalista em causa tem receio de perder o emprego. Pedro Tadeu também explicou que o recrutador que fez a entrevista ao jornalista tinha uma página na rede social LinkedIn e que estava apenas identificado como estudante da universidade do Porto e era a sua fotografia que aparecia no anúncio.