Cinemas portugueses sofreram quebras acima da média da UE por causa da pandemia

“Declínio estarrecedor”: Observatório Europeu do Audiovisual traça retrato de 2020 a nível comunitário e Reino Unido que mostra quebra de 70,7% nas idas ao cinema e países ainda mais afectados como Portugal ou Espanha. Falta de blockbusters dos EUA favoreceu cinema europeu e nacional.

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CHRISTINNE MUSCHI/Reuters

Em 2020, os cinemas da União Europeia e do Reino Unido receberam menos 70,7% de espectadores do que no ano anterior devido à pandemia de covid-19, confirmou há dias o Observatório Europeu do Audiovisual. É um “declínio estarrecedor”, diz o organismo. Os números do observatório evidenciam ainda que Portugal está entre os cinco países onde a quebra na ida às salas esteve “significativamente acima da média” –​ menos 11,8 milhões de bilhetes vendidos, resultados que configuram o pior ano de exibição cinematográfica no país desde que há registo. Ainda assim, as quotas de cinema europeu em sala aumentaram.

Os dados portugueses, revelados em Janeiro pelo Instituto do Cinema e do Audiovisual, quantificam um cenário desolador neste sector que há um ano se vê afectado pelo fecho de salas ou pela redução significativa do número de lugares devido às restrições sanitárias de prevenção da covid-19. Perante perdas de 62,7 milhões de euros de receitas brutas de bilheteira em relação a 2019, as organizações representativas dos exibidores temem o encerramento de mais de metade dos cinemas se não forem disponibilizados apoios de emergência; do lado da distribuição, a estratégia passa pela gestão do catálogo de filmes, enquanto os produtores continuam a adiar estreias e filmagens.

O cenário a nível comunitário não é muito distinto, sobretudo tendo em conta que 2019 tinha sido um ano “muito positivo” na UE e no Reino Unido e que se tinha ultrapassado, pela primeira vez desde 2004, a barreira dos mil milhões de bilhetes vendidos. Em 2020, venderam-se no conjunto destes dois territórios agora desagregados menos 712,3 milhões de bilhetes do que no ano anterior, uma quebra de 70,7%. E se na UE a 27 a quebra foi de 69,8% (menos 530 milhões de idas ao cinema), no Reino Unido os números aproximam-se da realidade portuguesa: menos 75%, ou meros 44 milhões de bilhetes vendidos.

Os países mais afectados pela quebra foram Portugal, Eslovénia (menos 77,7%), Roménia (menos 78,5%), Chipre (menos 79,4%) e Espanha (menos 79,4%) –​ no final de Janeiro, 70% dos cinemas espanhóis estavam fechados devido à pandemia. Os que sofreram quebras menos acentuadas, abaixo dos 65%, foram Dinamarca, Estónia, Finlândia, Países Baixos, Lituânia, Eslováquia e Suécia. Fora do espaço comunitário, a Rússia foi o país que mais bilhetes vendeu, 88,8 milhões, não só pela dimensão do seu mercado mas também porque a reabertura gradual em Julho foi particularmente eficaz  no total, a quebra face a 2019 foi inferior a 60%, com menos 59,5 milhões de bilhetes vendidos.

O estudo do Observatório Europeu do Audiovisual assinala ainda um efeito secundário da pandemia  números ainda provisórios indicam que “neste ano excepcional a escassez de blockbusters norte-americanos levou a um aumento da quota de filmes nacionais na maior parte dos mercados europeus”, lê-se no estudo de Fevereiro. Entre os países em que essa fatia aumentou significativamente estão Itália (55,6% dos filmes vistos nos cinemas foram italianos), Dinamarca (50%), República Checa e França. Ainda assim, entre os filmes mais vistos na UE e no Reino Unido estão títulos com mão americana: 1917 e Tenet, ambos co-produções EUA/Reino Unido, Sonic (co-produção Japão/EUA) e o norte-americano Star Wars: A Ascensão de Skywalker.

Actualmente, os cinemas portugueses continuam encerrados por ordem governamental no âmbito do estado de emergência. Fora da Europa, os maiores mercados vivem momentos distintos. Na China, o maior mercado do planeta, os cinemas estão abertos desde meados de 2020 e a pandemia parece controlada  graças a isso, Fevereiro foi o maior mês de sempre em termos de venda de bilhetes no país, com receitas de 1,4 mil milhões de euros, segundo a agência Associated Press. Nos EUA, e de acordo com a revista especializada Hollywood Reporter, cerca de 39% dos cinemas estão abertos e foi dada autorização para que já no dia 5 um dos dois mais importantes mercados regionais do país, o de Nova Iorque, possa reabrir após quase um ano de encerramento. Para já, porém, as salas apenas poderão lotar até 25% da sua capacidade.