Campeonato reaberto ou campeonato quase fechado?

FC Porto e Sporting defrontam-se neste sábado, no Dragão. “Leões” querem aumentar a vantagem para o rival, “dragões” querem encurtá-la.

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Wilson Manafá e Nuno Santos durante o Sporting-FC Porto da primeira volta REUTERS/Rafael Marchante

A palavra normal não faz parte do futebol português em 2020-21. Não é normal haver futebol sem público, mas vai continuar a ser assim nos próximos tempos. E não é normal que um “clássico” à 21.ª jornada seja tão importante para definir o futuro campeão. Porque não é normal que os habituais candidatos (aqueles que dividiram os títulos nas últimas 18 épocas) percam tantos pontos e que uma equipa com zero títulos de campeão nesse período esteja tão destacada no comando. Um Sporting na frente e com mais dez pontos que o perseguidor mais próximo, o FC Porto, é o “novo normal” em que primeiro e segundo se vão defrontar, este sábado (20h30, SPTV1), no Dragão. O que acontecer deste “clássico” do “novo normal” pode ajudar a definir o que irá passar-se nas restantes 13 jornadas. Até porque há outros interessados.

Em poucas palavras, a história das primeiras 20 jornadas (na perspectiva dos dois primeiros) conta-se assim: o Sporting partiu para a época como terceiro ou quarto na hierarquia dos candidatos ao título, mas segue em primeiro com 17 vitórias e três empates, 54 pontos conquistados em 60 possíveis, apenas dez golos sofridos e como a única equipa em 18 que ainda não perdeu; como campeão em título, o FC Porto arrancava como um dos dois principais favoritos, mas foi tropeçando mais vezes do que é habitual (cinco empates e duas derrotas) e, mesmo tendo o melhor ataque (45 golos), tem um registo defensivo de meio da tabela (22 sofridos), o que ajuda a explicar por que razão já deixou tantos pontos em cima da mesa (perdeu 16).

No entanto, se a história nos diz que nunca houve uma vantagem de dez pontos desperdiçada por um líder nesta altura do campeonato, também é preciso ver que este FC Porto, de Sérgio Conceição, foi campeão em 2019-20 depois de recuperar de uma desvantagem de sete pontos para o Benfica. E ainda acabou com uma vantagem de cinco pontos para os “encarnados”. Ou seja, fez mais 12 pontos, e tudo começou a virar num “clássico” no Dragão à 20.ª jornada, que teve vitória portista por 3-2. Enquanto o Benfica caiu a pique, a equipa de Conceição recuperou e acabaria por celebrar o título à 32.ª jornada, frente ao Sporting, de Rúben Amorim.

Um triunfo do FC Porto relança a luta pelo campeonato e também pode reabrir essa luta a Sp. Braga (que está a 11 pontos) e até a Benfica (que está a 15), dependendo, claro, do que fizerem, respectivamente, frente a Nacional e Rio Ave. E conhecendo-se a natureza lutadora do FC Porto e do seu treinador, sete pontos a recuperar em 13 jornadas não parece, de todo, uma missão impossível. E os portistas têm experiência para lidar com estas situações.

Experiência é o que falta a esta equipa do Sporting em lidar com o seu próprio sucesso. Tem resultado nas primeiras 20 jornadas e o discurso de Rúben Amorim, o seu o famoso “jogo a jogo”, tem sido certeiro. Uma vitória no Dragão deixará os “leões” com 13 pontos de vantagem sobre a equipa portista e manterá, no mínimo, a diferença para os outros dois, que só jogam depois do “clássico”, mas uma derrota também não será catastrófica para o Sporting – sete pontos ainda será uma vantagem considerável. O empate, claro, servirá melhor aos outros dois candidatos.

Amorim em vantagem

O historial de confrontos entre Sérgio Conceição e Rúben Amorim é necessariamente curto, porque o técnico do Sporting só chegou a treinador de I Liga durante a época passada. Este será o sexto embate entre os dois e, para já, a vantagem é de Amorim, com dois triunfos enquanto estava no Sp. Braga e mais um já esta época na Taça da Liga. Conceição venceu apenas uma vez, no tal “clássico” que lhe deu o título, mas esta época não venceu nenhum dos dois: empate (2-2) no jogo da primeira volta e derrota (2-1) nas “meias” da Taça da Liga.

Por tudo isto, este não é apenas mais um jogo que vale três pontos. É como se valesse seis. E é nesse sentido que foram as palavras de Conceição sobre este “clássico” que pode servir para reabrir o campeonato ou para o deixar quase fechado. “Claramente que é um jogo em que podemos ganhar três pontos e não deixar que o nosso adversário directo os ganhe. Todos os jogos agora ganham o seu peso e a sua importância e nós assumimos o peso e a responsabilidade deste jogo”, frisou Conceição, treinador bicampeão e habituado a estes jogos de alta pressão.

Amorim, treinador com pouco mais de um ano de I Liga e que só há mês e meio é que tem o seu nome na ficha de jogo como chefe da equipa técnica, reconhece que do outro lado está uma equipa habituada a ganhar e a reagir a situações adversas, mas diz que o Sporting também abraça essa pressão que advém de estar numa posição a que não estava habituado: “É um tudo por tudo para o Sporting, nós é que temos mais fome. É assim que encaramos o jogo. Eles estão habituados, mas também há o outro lado, não estamos habituados e não sabemos. Mas também não queremos saber.”