“Essa ideia mirabolante de que os carros vão desaparecer é mentira”, diz Isaltino

Câmara de Oeiras abre a porta a empresas privadas de estacionamento e mais de 1500 lugares estão planeados para Algés e Carnaxide. Oposição concorda que há falta de sítios para os carros, mas pede um plano de mobilidade.

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Isaltino Morais diz que os padrões de mobilidade dos portugueses não vão mudar tão cedo Miguel Manso

Mais de 1500 lugares de estacionamento automóvel vão ser criados em Algés e Carnaxide nos próximos anos e a Câmara de Oeiras tenciona aumentar a capacidade de parqueamento um pouco por todo o concelho. A assembleia municipal aprovou na terça-feira o lançamento de um concurso público para a construção e exploração de cinco novos parques e a discussão centrou-se na mobilidade que o município quer para o futuro.

Os deputados do PS, do BE e do CDS criticaram a inexistência de um plano a longo prazo que contemple também os transportes públicos e a chamada mobilidade suave, enquanto Isaltino Morais retorquiu que os carros não vão desaparecer tão cedo e que há carências de estacionamento actuais que têm de ser resolvidas.

Os parques agora aprovados vão ser construídos no terminal rodoviário, na Av. da República e na Rua João Chagas, em Algés, na Rua Manuel Teixeira Gomes e na Av. Tenente General Zeferino Sequeira, em Carnaxide.

O maior e previsivelmente mais caro será o do terminal rodoviário de Algés, no Largo D. Manuel I, onde se situa uma interface de transportes públicos. Trata-se de um silo com três pisos, deverá ter 400 lugares e um custo a rondar os 6,3 milhões de euros. Para a Av. da República está projectado um silo e um parque subterrâneo com quatro pisos e 180 lugares, a custar cerca de 3,360 milhões de euros. Já o parque da Rua João Chagas, junto aos supermercados que ali existem, será subterrâneo com dois pisos, terá 286 lugares e custará 5,724 milhões de euros.

Em Carnaxide, o parque com maior capacidade ficará junto ao Quintal Desportivo e será subterrâneo com quatro pisos. Prevêem-se 350 lugares e um investimento na ordem dos 5,4 milhões de euros. O outro na mesma localidade vai ser um silo com subterrâneo, num total de quatro pisos, com capacidade para 323 viaturas, e um custo de 4,620 milhões de euros.

Esta é a primeira vez que a Câmara de Oeiras aprova a entrada em cena de empresas privadas de estacionamento, uma vez que até aqui todos os investimentos e a exploração dos parques estiveram a cargo da empresa municipal, a Parques Tejo. O concurso público está dividido em três lotes e o prazo máximo de exploração é de 40 anos.

Esse foi um dos aspectos sublinhados por Nuno Gusmão, deputado do CDS, que afirmou ter lido um estudo segundo o qual “70% dos jovens não tencionavam ter carro” e que isso era algo a “ter em conta” numa proposta “a tão longo prazo”. “Objectivamente a necessidade do estacionamento existe, mas eu creio que o que devia existir seria um planeamento adequado de tudo o que diz respeito a mobilidade, a estacionamento, a novos instrumentos que deviam estar plenamente integrados num plano de mobilidade do concelho, que ainda não existe”, criticou. Ainda assim, acabou por votar favoravelmente a proposta.

Já o PS, o BE, a CDU e o PAN votaram contra. “Como é que isto é cerzido com os outros projectos todos de mobilidade de que se fala ou estão a ser pensados?”, quis saber o socialista Jorge Rato. “Se nós tivéssemos aqui o plano de mobilidade que foi anunciado que seria uma prioridade do mandato autárquico – já lá vão três anos e qualquer coisa e ainda não vimos onde é que ele está – se calhar teríamos respostas para estas questões”, observou.

Outro ponto com que os socialistas não concordam é com a gestão privada do futuro parque na estação de Algés, considerada pelo deputado Pedro Almeida como “uma zona nevrálgica” onde “fazia sentido que a câmara pudesse assumir o encargo da construção do parque”.

Os eleitos reconheceram que há carências de estacionamento no concelho, mas divergiram quanto às causas e ao que fazer daqui em diante. “Temos parques de estacionamento suficientes no concelho ou não temos? Do nosso ponto de vista, não temos. Precisamos de parques de estacionamento no concelho? Do nosso ponto de vista, sim. Quanto mais rapidamente melhor”, opinou António Moita, do IOMAF, o movimento político do ex-presidente Paulo Vistas.

Em sentido contrário, Miguel Pinto, do BE, disse que as políticas urbanísticas de Isaltino vieram agravar ainda mais o problema. “Como a rede de transportes públicos não serve os cidadãos, a solução é a viatura particular, mais a viatura particular, mais ainda a viatura particular. A aposta nos modos suaves é fraca, havendo poucas ciclovias construídas e muitas em projecto. Assim são cada vez mais as estradas, as vias longitudinais, os viadutos e até os túneis. Como há mais carros, o estacionamento tornou-se mais difícil.”

“Não há mobilidade suave enquanto houver carros a ocupar ruas, os passeios e o espaço público”, respondeu Isaltino aos críticos. Retomando um argumento que já usara em câmara e que vem plasmado na proposta aprovada, o autarca disse que a construção de novos parques ajudará a libertar as ruas para os peões e utilizações comunitárias. “Este estacionamento é fundamental e vai contribuir para a resolução dos problemas de que todos aqui falam”, sustentou.

Porém, admitiu depois que “construir mais estacionamento é contribuir para o problema da mobilidade” e apontou culpas aos sucessivos Governos por não terem apostado em transportes públicos. “O transporte público em Portugal é uma falência. A democratização do automóvel em Portugal é um fenómeno posterior ao 25 de Abril, antes não havia nenhum problema de estacionamento”, argumentou. “Essa ideia mirabolante de que os carros vão desaparecer daqui por uns tempos porque os jovens não querem carros – é mentira.”

O presidente da câmara disse ainda que o plano de mobilidade foi encomendado a consultores externos e que ainda não está pronto por causa da pandemia, mas adiantou já uma conclusão: “Não é preciso ser consultor, professor universitário ou engenheiro para perceber que há uma carência de estacionamento nestas zonas.” Aliás, acrescentou, mais localizações se vão seguir, como é o caso da Figueirinha, em Oeiras.