Carnaxide tem um pequeno pulmão que pode ser grande para todos

Cidadãos de Oeiras estão a movimentar-se para proteger a Serra de Carnaxide, argumentando que a sua mancha verde é fundamental para toda a Grande Lisboa. Câmara de Oeiras planeia lá plantar 12500 árvores.

Foto
Placa colocada na serra que assinala a criação do parque suburbano NUNO FERREIRA SANTOS - PUBLICO

A subida começa sem grande esforço, por entre pinheiros baixos, e vai-se tornando progressivamente mais íngreme à medida que também a vegetação muda e os pinheiros dão lugar a arbustos. Ao atingir uma pequena clareira, Eugénio Sequeria põe-se a remexer no solo com as mãos e depois vira-se para um carrasco, arbusto aparentado a carvalho que por ali há em abundância, e rouba-lhe uma folha. O grupo faz uma pausa na caminhada, repousa o corpo e o olhar consola-se: o estuário do Tejo mostra-se em pleno.

“A Serra de Carnaxide é vital”, resume Eugénio Sequeira, especialista em solos e ambiente que durante muitos anos esteve à frente da Liga para a Protecção da Natureza. A pausa prolonga-se enquanto a paisagem se entranha. Com um gesto de mãos, Daniel Martins acrescenta: “À volta desta área temos um terço da população portuguesa. Isto não é uma questão local, é uma questão nacional.”

Daniel é o primeiro subscritor da petição “Preservar a Serra de Carnaxide”, lançada em Dezembro no site da Assembleia da República e mais recentemente na plataforma Petição Pública. Habituado a ter a serra como vizinha, este consultor informático começou há vários anos a movimentar-se para forçar os poderes públicos a comprometerem-se por aquela área, uma das poucas na Grande Lisboa onde a urbanização não chegou ainda em força. “Há aqui uma oportunidade de acção. Este espaço é necessário para as populações e não só para meia dúzia de pessoas.”

Partilhada entre os concelhos de Oeiras e Amadora, a Serra de Carnaxide está já urbanizada na vertente norte (Amadora), onde está a nascer o empreendimento habitacional SkyCity e outros estão previstos. Mas a sul continua relativamente ‘selvagem’, ainda que também por aqueles terrenos exista um grande apetite imobiliário. Desde 1994 que a Câmara de Oeiras tem em vigor um Plano de Urbanização do Parque Suburbano da Serra de Carnaxide, que prevê um parque de campismo, um parque aquático, um hotel, um centro hípico, uma zona de lazer, uma exploração agro-pecuária, zonas para equipamentos e uma zona habitacional. De tudo isto, apenas a última foi construída.

A autarquia, que garante que “ao longo dos anos já adquiriu cerca de 40 hectares” da serra e “tem vindo a desenvolver acções para a preservação” do espaço, agendou para a semana passada a plantação de 12500 árvores, que entretanto foi adiada devido à crise da covid-19. Um dia antes da data prevista, uma retroescavadora andou pela serra a abrir caminhos e dezenas de marcos de madeira foram colocados no chão, relata Daniel Martins. A câmara diz que foi um trabalho preparatório para a plantação. A Inspecção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento Território (IGAMAOT) confirmou ao PÚBLICO ter recebido uma denúncia, reencaminhada para a autarquia e para a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR).

Importância metropolitana

“Independentemente do anúncio da plantação de árvores, que é positivo, a nossa agenda e foco não mudam”, garante Daniel Martins, que conseguiu trazer para a sua luta várias figuras de proa da defesa do ambiente em Portugal. Uma delas é Filipe Duarte Santos, especialista em alterações climáticas e presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável​, que atribui grande importância à Serra de Carnaxide dentro da Grande Lisboa. “Há três zonas que ainda mantêm alguns ecossistemas naturais: a Serra de Sintra, Monsanto e Carnaxide. Os três formam uma linha, representam um corredor ecológico.”

A serra tem “espécies interessantes do ponto de vista da botânica e da fauna” e é “reconhecida desde há muito tempo como importante pelos seus solos e recursos hídricos”, aponta Duarte Santos, acrescentando que, com o panorama climático que se avizinha, “a probabilidade de haver chuvas mais pronunciadas é elevada e uma excessiva urbanização aumenta o risco de inundações e cheias”.

É também o alerta de Ana Estela Barbosa, engenheira do ambiente. “Sempre que impermeabilizamos excessivamente estamos a potenciar situações de cheia e a sobrecarregar as ETAR, porque toda a água precisa de ser tratada”, diz. “As zonas verdes têm de ser mantidas, preservadas e geridas. Há um usufruto indirecto ao nível da saúde pública e um directo, pois cria-se uma zona de lazer e aprendizagem ambiental, o que em termos de justiça social é muito importante porque nem todos têm a possibilidade de se deslocar muito longe para terem espaços verdes.”

A pneumologista Cecília Longo trabalha no Hospital Amadora-Sintra, no sopé da serra, e olha para ela como “o pequeno pulmão” de uma zona em que o betão domina por completo. Nestes dias atarefados a combater a pandemia, a médica sublinha a importância do contacto com a natureza para reduzir os níveis de stress, melhorar a concentração, fazer exercício e, mais simples, respirar ar puro. “A nível de saúde pública só há benefícios.”

De Deus e dos homens

No lado oeirense da serra conhece-se, para já, a intenção de construir um complexo do SL Benfica com pavilhão de artes marciais e ginástica, um campo de râguebi com pista de atletismo, um centro de massagens, uma pista de corrida indoor, uma piscina, um pavilhão desportivo, um campo de futebol, restaurante, centro de reuniões, clínica, ginásio e um silo de estacionamento com 540 lugares para automóveis. Outros projectos foram anunciados ao longo dos anos e até aprovados pela autarquia, como é o caso da Villa Cavallia, um empreendimento de grande dimensão que teria um hotel, apartamentos, comércio, lar de idosos, clínica e um centro hípico. Até agora, no entanto, nenhum se concretizou.

Antes que isso aconteça, Daniel Martins quer que o Estado tome uma posição. “Acredito que haja muitos decisores que, se tiverem todos os dados em cima da mesa, podem tomar decisões de preservação”, acredita Ana Estela Barbosa, lamentando que “não esteja a haver uma integração de valores reais” no debate público e nas decisões tomadas.

Filipe Duarte Santos nota que “há um distanciamento progressivo entre as pessoas e a Natureza”, pois estas “têm pouca disponibilidade para actuar, para se mobilizarem e para se comprometerem”. É por isso, acrescenta Daniel Martins, que tem promovido constantes passeios e outros eventos na serra. “A melhor defesa da serra é as pessoas conhecerem-na.”

Antes de seguir caminho serra acima, Eugénio Sequeira sacode as mãos e lança nova olhada ao estuário, lá em baixo. “Deus perdoa, os homens às vezes, a Natureza nunca”, vaticina.