Algés está em mudança e os cidadãos querem ser uma voz activa

Este sábado arranca um fórum de discussão sobre Algés: uma localidade do concelho de Oeiras colada a Lisboa que se tornou muito apetecível por isso. “É maravilhoso morar aqui”, diz uma das organizadoras, mas o debate sobre a terra ainda é escasso.

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A estação de Algés é o único ponto de passagem pedonal até ao rio Ricardo Lopes

Deambulando pelas suas ruas bem alinhadas, com prédios que não vão muito além dos três ou quatro pisos, com muitos restaurantes e comércio, alguns serviços e equipamentos públicos, a baixa de Algés mantém a aparência de bairro simpático de onde não é preciso sair para ter tudo. Isso é verdade, diz Helena Abreu, “mas esse lado de terra simpática é um bocadinho adormecedor”.

Há uns anos, quando descobriu o Facebook, Helena começou a partilhar desabafos, reflexões e indignações sobre esta localidade do concelho de Oeiras, em que habita há mais de 40 anos. “A certa altura comecei a pensar que podíamos ir além do cocó na rua e dos buracos nos passeios”, relata. Nasceu assim a Desafiar Algés, uma rede que se propõe a lançar o debate sobre o futuro da terra e que organiza este mês (nos dias 1 e 15) o fórum “Pensar Algés”. Por lá passarão, entre outros, o geógrafo João Seixas, o especialista em mobilidade Miguel Barroso e o economista e ex-ministro Augusto Mateus, mas é sobretudo a população local que a rede quer atrair.

“Isto é o início de um percurso. É um ponto de partida mais generalista para outras discussões”, resume José Catela, um dos membros da Desafiar Algés. Disposto a uma “confrontação positiva de ideias”, nas palavras da arquitecta Chiara Ternullo, o grupo tem uma visão crítica da situação actual e dos caminhos que se avizinham. “Falta um espaço público, físico e cívico, para a comunidade”, exemplifica, lamentando a inexistência de uma praça, de acessos pedonais ao Tejo ou ao Alto do Duque. “Todas estas zonas têm de ser repensadas.”

Para o também arquitecto André Cid, responsável pela associação Fábrica de Alternativas, “o que se perspectiva de mais preocupante é o que está a acontecer em Miraflores”, uma zona onde estão a ser desenvolvidos vários empreendimentos imobiliários que criarão mais de mil novos fogos. “O que se está a fazer é especulação pura e dura para favorecer as classes altas”, critica Cid, acusando a Câmara de Oeiras de “alargar rotundas e estradas à custa dos espaços verdes” para fazer face ao previsível “aumento de tráfego em vias já de si saturadas”.

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O PÚBLICO procurou, durante esta semana, falar com alguém da câmara a propósito deste fórum e dos desafios que Algés tem pela frente, mas ninguém se mostrou disponível.

A autarquia promoveu recentemente uma reunião com arquitectos no Palácio Anjos para discutir o futuro da Av. dos Bombeiros Voluntários, da antiga Praça de Touros e do terminal rodoviário – uma zona a que chamou “Portas de Algés”. No encontro, fechado à população e à comunicação social, participaram arquitectos como Carrilho da Graça, Gonçalo Byrne, Manuel Salgado e Troufa Real, entre outros. Isaltino Morais afirmou que quer promover a “democratização do planeamento” e sublinhou a inexistência de uma praça e de bons acessos ao rio.

No seu programa eleitoral, o autarca tinha inscrita a intenção de criar um espaço público de grande dimensão no espaço da antiga Praça de Touros. A câmara adquiriu o terreno e manteve o seu uso de parque de estacionamento, prometendo que isso é provisório até o projecto de praça avançar. Entretanto começaram demolições no fim da Av. dos Bombeiros Voluntários com vista ao seu reperfilamento.

“Toda aquela zona verde do Alto do Duque está emparedada por prédios e vai acontecer o mesmo no Parque dos Cisnes”, comenta André Cid, referindo-se ao grande empreendimento previsto para junto do Parque Urbano de Miraflores. Além disso, acrescenta, “há um problema gravíssimo de impermeabilização de solos”, sobretudo porque “Algés tem um histórico de inundações”.

“Este modelo de Urbanismo já passou há muito tempo. A nossa postura é de dar a mão à câmara para que eles percebam que estamos aqui”, diz Chiara Ternullo. “Somos críticos, sim, mas quero ter a possibilidade de intervir, de ter voz activa no concelho”, complementa André Cid.

Estas questões estarão a debate na primeira parte do fórum, este sábado, dedicado à história, ao urbanismo e à mobilidade. Na segunda parte, no dia 15, a discussão vira-se para a economia, o associativismo, a cultura e a realidade social. “O tecido social está a mudar completamente”, observa Helena Abreu sem ressentimentos. Há mais crianças, há mais imigrantes, mas há também “um segmento de população muito envelhecida”, sublinha José Catela, e o espaço urbano tem de se desenhar em função de todos.