Trump e a culpa sem castigo

Os republicanos continuam reféns de Trump e da sua enorme base de apoio, que não hostilizam por cálculo político, com muitos dos seus congressistas já a pensar na eleição de 2022.

O ataque ao Capitólio dos EUA tem um culpado: Donald Trump. Não restam dúvidas quanto a isso e até o líder dos republicanos no Senado o admite. Mitch McConnell foi particularmente claro, ao dizer que o ex-Presidente é “moralmente responsável por ter provocado” a invasão de 6 de Janeiro. Novas revelações reforçam o envolvimento directo ou indirecto de Trump no que se passou.

Uma investigação do The New York Times provava este domingo que, pelo menos, seis seguranças de Roger Stone, um amigo e antigo conselheiro de Trump, participaram na invasão do Capitólio. Stone foi condenado por ter mentido ao Congresso, obstruído e manipulado testemunhas durante a investigação sobre a interferência russa na campanha de 2016, mas a sua pena de prisão foi comutada por Trump uma semana antes da reclusão se tornar efectiva. Os seus seguranças fazem parte de uma milícia antigovenamental de extrema-direita que fornece serviços de segurança... Não há factos alternativos que maquilhem a verdade.

A absolvição do ex-Presidente era mais do que esperada. Mas este foi o impeachment mais bipartidário de sempre nos EUA e a maior parte dos senadores republicanos declarou-o inocente com base em argumentos constitucionais, como foi o caso de Mitch McConnell. A repugnância do seu comportamento, a sua longa e contínua tentativa de degradar as instituições e de corroer todo o processo democrático, deveria enojar qualquer democrata. Não foi isso que aconteceu. A votação não seria muito diferente caso estivesse em causa a destituição de um presidente eleito pelo Partido Democrata.

O Partido Republicano continua refém de Trump e da sua enorme base de apoio, que evita hostilizar por cálculo político, com muitos dos seus congressistas já a pensar na eleição de 2022. A hostilização de Trump terá, certamente, um ricochete eleitoral. Contemporizar com o trumpismo destruirá o partido. 

O mesmo partido que com deleite perverso tentou exonerar Clinton por causa do caso Monica Lewinsky perdeu toda a autoridade para se afirmar, como costuma fazer, como a garantia da virtude, dos valores e do conservadorismo. A lógica partidária sobrepôs-se à ética republicana. O futuro político e judicial de Trump, que pode enfrentar acusações criminais na Georgia ou a invocação da 14.ª emenda, que o inibiria de se candidatar, é incerto. O dos republicanos também. A incerteza destes depende da incerteza do primeiro.